Plutão em Capricórnio
Não podia faltar, não é? Com a entrada definitiva de Plutão no Signo de Capricórnio, surgiram logo perguntas acerca de porque não tinha abordado esse tema mais cedo, dada a sua pertinência.
A minha resposta, basicamente, é que não tendo a seguir modas e, como vão concluir no final deste texto, também não dou o mesmo relevo ao evento de entrada num Signo que muitos parecem dar (embora tenha bastante importância, claro, não estou a dizer o contrário). De qualquer forma, é algo que só volta a acontecer na madrugada de 20 de Dezembro de 2254, e tenho algumas suspeitas sobre se vou estar cá nessa altura para falar disso, por isso, vamos lá fazer uma homenagem ao evento.
Comecemos com um pequeno exemplo do que anda a ser escrito por aí sobre este assunto:
No dia 28 de Novembro, ou seja, um dia a seguir a Plutão ter entrado em Capricórnio definitivamente, houve a “Sexta-feira Negra” nos EUA. É um dia especial, que ocorre todos os anos a seguir ao “Dia de Acção de Graças”, e marca o começo da época natalícia. Neste dia, as lojas abrem com um grande desconto geral em vários produtos (às vezes, todos). Devido a esta tradição, é comum as pessoas fazerem filas enormes às portas dos estabelecimentos comerciais porque há quem espere o ano inteiro por este dia para conseguir o melhor negócio e, por isso, a mercadoria tende a desaparecer rápido, o que significa que quem entra primeiro tem maiores oportunidades de conseguir agarrar algo que realmente queira. Os ferimentos são comuns, visto que nalguns sítios as pessoas atropelam-se para entrar primeiro, mas este ano, em particular, houve uma morte.
Será que os Planetas são culpados? De acordo com a americana Elsa, é possível que seja Plutão em Capricórnio, que está a mostrar-nos o lado negro dos grandes negócios. Ou talvez seja uma prova de que a sociedade está em decadência ao ponto de nos pisarmos uns aos outros para conseguir um objecto por pura ganância.
É claro que isto é só um caso isolado, entre MILHÕES de lojas, nos EUA inteiros, mas borrifem lá nisso… o que importa é que foi notícia e, se dermos bem a volta à coisa, lá conseguimos encaixar onde quisermos.
(Clicar AQUI para ver texto original, na íntegra)
Embora a lógica social da senhora não esteja mal colocada, a associação a Plutão em Capricórnio é que parece-me completamente descabida. Situações destas acontecem com bastante frequência, e Plutão não esteve em Capricórnio em nenhuma dessas alturas. Por fantástica ironia, um dos últimos comentários à mensagem acima vem de alguém que diz viver na Índia, e afirma que isso acontece muitas vezes.
A Crise Financeira? Yup, também dizem que é por culpa de Plutão em Capricórnio. Carreiras em queda? Também. Organizações falidas? Idem. Há muitos mais exemplos, mas não vale a pena pejar este texto com coisas que podem ser facilmente descobertas com a simples ajuda de um bom motor de busca.
Aparentemente, Plutão tornou-se o “culpado” de praticamente tudo o que acontece. Peguemos no exemplo da crise do petróleo (seguindo a lógica de Capricórnio ser um Signo de Terra e tanto o Planeta como o Signo estarem associados ao conceito de Poder), como se a crise do petróleo não fizesse parte da crise energética que já vem de trás, mas a isto há quem insista com o argumento:
- A transformação é mais radical agora que ele entrou em Capricórnio.
“Capricórnio” e “radical”? Não andamos a confundir as coisas? Parece um típico caso de “se as coisas não encaixam à primeira, vai-se buscar o martelo”. Já não é Júpiter que dispõe deste Plutão (já deixou de o ser quando Júpiter entrou em Capricórnio), mas sim Saturno. Tónica bem diferente, meus amigos, e que não tem nada de radical nem grandioso, mas sim de metódico e cauteloso. Aliás, notem como o nascimento deste ciclo ocorre com Saturno em Virgem, Trígono a Júpiter em Capricórnio.
Há outros Aspectos, sem dúvida, mas a chave acaba por ser a mencionada acima. Mercúrio é Dispositor de Saturno? Claro que sim, mas está em Sagitário, o que nos traz de volta a Júpiter em Capricórnio. Úrano está Oposto em Peixes? Claro que está, mas é Disposto por Júpiter, o que nos traz de volta a Capricórnio. Neptuno, como segundo Dispositor de Úrano, torna-se marcante apenas por estar em Recepção Mútua, mas esta é uma influência cuja interpretação levar-nos-ia muito longe, e fora do contexto a que me quero cingir.
De qualquer forma, para muitos, é como se Plutão fosse o tio-avô malvado que a familia sempre disse mal, e vem agora passar o Natal com todos e, assim que passa a porta de entrada, qualquer coisa de mal que aconteça é por culpa da presença daquele senhor. A isso eu digo “Jesus, Maria, e José! Tirem a cabeça da sarjeta!!” O coitado do Plutão ainda agora entrou, não teve sequer oportunidade para fazer praticamente nada, e já está a levar por tabela de todos os lados.
No fundo, as associações que são feitas a Plutão lembram imenso as associações que se faziam (e, às vezes, ainda se fazem) a Saturno, o “Grande Maléfico” da Astrologia Tradicional Clássica. No fundo, quanto menos se conhece de um Planeta, mais se dizem baboseiras sobre ele. Há, também, quem afirme que isto é típico de uma sociedade que ainda não domina o nível de consciência de Plutão.
Vamos colocar isto de outra forma. Dizem algumas teorias (e isto é mais “Filosofia Astrológica”, atenção) que, durante milénios, o ser humano só tinha conhecimento dos primeiros sete Planetas porque não tinha um nível de consciência que o permitisse ir mais longe. Saturno, sendo o último destes sete, era o menos compreendido, logo, o mais temido.
Quando os restantes Planetas foram descobertos e, consequentemente, incluídos no estudo astrológico, isso deveu-se ao facto da humanidade, como um todo, estar preparada para entender e viver os princípios desses Planetas – como se, simbolicamente, a expansão do Sistema Solar e Universo conhecido fosse análoga ao potencial de consciência da humanidade. Ora, neste momento, Plutão ainda é o último dos Planetas utilizados astrologicamente, sendo também o menos compreendido, logo, o mais temido.
Existem outros Planetas para lá da órbita de Plutão que alguns astrólogos já tentam usar mas, até à data, não há informação coerente sobre eles, só teorias, por isso, podemos concluir que a humanidade ainda tem muito trilho para caminhar, até entender e, mais tarde, integrar as propostas desses objectos Transneptunianos
Claro que o potencial da humanidade não corresponde, necessariamente, ao potencial individual. Por exemplo, existem muitas pessoas hoje em dia que ainda se debatem com o seu Saturno, ou mesmo Júpiter. Estas pessoas nunca estariam em condições de compreender o impacto de Úrano, quanto mais o de Neptuno ou Plutão. Daí haverem astrólogos que insistem em usar exclusivamente a Astrologia Tradicional Clássica e recusam, terminantemente, a recorrer às descobertas modernas. Pura e simplesmente, não as entendem, logo, não as conseguem usar (mas, ao menos, são coerentes dentro dos seus limites, e que prova a integração de Saturno).
Mesmo a nível das massas – e, aqui, não estou a falar de astrólogos, mas das pessoas em geral mesmo – é geralmente aceite que a sociedade está a aprender a lidar com o nível de Úrano. Note-se o radicalismo, a sede pela individualidade, as explosões tecnológicas e científicas, etc. Neste mundo, existem alguns que já dominam isso, e estarão a tentar olhar mais além, ao nível de Neptuno, o que significa que, se esta filosofia (ou teoria, se preferirem) estiver correcta, só depois disso é que estaríamos preparados para entender Plutão em toda a sua glória, mas duvido muito que haja alguém a esse nível, presentemente.
Só uma nota final sobre este assunto. Não confundam “nível de Neptuno” com os maluquinhos religiosos que falam muito de Amor Universal, e valores de Nova Era, mas quebram metade daquilo que pregam à primeira distração. Isso são pessoas que, na melhor das hipóteses, estão a lidar com o Júpiter, e agem como se tivessem “saltado” por cima do Saturno e Úrano, directamente para Neptuno.
Tendem a ser pessoas que pretendem convencer os seus fiéis ouvintes (ou leitores) que a vida deve ser assim ou assado, e que temos todos este ou aquele objectivo. Usam frequentemente a palavra “amor” e outras coisas simpáticas do género que são bastante apelativas mas, ao fim do dia, quem está a nível de Saturno sente que há falta de seriedade nessa abordagem, e quem está a nível de Úrano sente logo que essa abordagem é uma negação do projecto individual de vida que cada ser humano quer e precisa viver. Neptuno está ainda mais além disso, e conto pelos dedos das mãos o número de pessoas que conheci ao longo da vida que parecem entender isso.
- Nesse caso, o que podemos esperar de Plutão em Capricórnio, realisticamente?
Se Neptuno está além da compreensão das massas, o que dizer então de Plutão? Vou-me resumir a uma visão meramente racional, mas sei que não vou estar a fazer-lhe justiça.
Prevê-se um progressivo demolir de velhas estruturas, tanto físicas como psicológicas, sociais e morais, para que fique “campo aberto” ao surgimento de substitutos modernos e não-tradicionais. Naturalmente, esse será mais o processo de Plutão em Aquário, mas o limpar do terreno e construção dos alicerces básicos deverá ocorrer agora, de forma organizada e metódica, como a combinação Virgem/Capricórnio exige.
Sim, Plutão entrou num novo Signo e é algo que só acontece uma vez na vida, sem dúvida, mas o acto de entrada não é assim tão marcante como alguns tentam fazer parecer. O facto de um Planeta ser “lento” implica isso mesmo, lentidão. As coisas vão acontecer ao longo dos próximos anos, em progressão. Os cataclismos que alguns prevêem não vêm de Plutão em Capricórnio sozinho, há, certamente, uma combinação astrológica completa que desperta os eventos que iremos presenciar no futuro próximo.
É claro que, quem tem Planetas nos primeiros ou últimos graus de um Signo (em especial, primeiros graus dos Signos Cardinais), vai sentir mais os efeitos desta passagem mas, como disse, não é algo que ocorra de um dia para o outro. Podemos dizer que há um certo “requinte de malvadez” na forma como um Plutão lento vai moendo as coisas até ficarem pó. Quando digo “quem” também posso dizer “quê”, porque as nações têm o seu próprio Horóscopo, os mandatos de poder têm o seu próprio Horóscopo, e por aí fora.
Para terminar, deixo uma provocaçãozinha: se sentirem frio ao longo dos próximos tempos, podem crer, é por causa de Plutão em Capricórnio. A sério, é a forma que o Planeta feito de gelo tem de vos dizer que entrou no Signo mais frio do Zodíaco. O facto de estarmos quase a entrar no inverno não tem absolutamente nada a ver.
Até à próxima.