Astrologia

Ciência e Educação

Colectânea de Mitos – 1

Talvez se recordem que, nos primeiros textos que escrevi aqui no blog, eu disse que tentaria abordar os vários mitos e falácias que existem por aí sob o nome da Astrologia ou, de alguma forma, relacionados com ela.

Contudo, reparei que alguns deles são tão fáceis de desmistificar que não justificam um texto exclusivo. Daí nasceu a base para o texto desta semana, ou seja, fazer um apanhado de alguns desses pequenos pontos – e penso que até faz um texto de leitura muito fácil, o que é simpático para aqueles visitantes que não gostam muito de ler aqueles longos textos que eu, por vezes, coloco aqui.

Vamos a isso, sim?

- A Lua influencia as marés, logo, é natural que afecte também o ser humano porque 75% do nosso corpo é feito de água.

Posto de forma directa e simples, este argumento é completamente falso. Aliás, é mais do que falso: é estúpido.

Isto é o que acontece quando os pseudo-astrólogos, numa tentativa desesperada de ganhar credibilidade naquilo que fazem, procuram agarrar-se a princípios científicos de outras disciplinas, sem terem conhecimento das mesmas, em vez de se esforçarem por fazer a Astrologia valer por sí mesma. O resultado é demonstrarem ainda mais que são ignorantes, e afundam com eles a (pouca) credibilidade que, até então, poderiam ter.

A Lua afecta as marés devido ao efeito da gravidade. Acontece que a gravidade da Lua só afecta GRANDES porções de água, tal como os oceanos. Notem que a Lua não tem o mesmo efeito num lago, muito menos numa piscina, e ainda menos numa banheira. Isto, aliás, é um teste que podem fazer em casa… encham a banheira de água, e esperem. Vão concluir que não há “maré alta” nem “maré baixa”. Porquê? Porque a gravidade da Lua não é suficiente para afectar uma porção tão pequena de água. Considerem agora que a água que temos no nosso corpo é ainda menor do que aquela presente numa banheira cheia.

Conclusão: o efeito da Lua sobre as marés (influência gravitacional) não tem nada a ver com o seu efeito sobre o comportamento do ser humano (influência astrológica).

Como pequeno aparte, o número “75″ que é tantas vezes referido como a percentagem de água no corpo humano está também errado. Na verdade, só nos bebés é que há uma percentagem desse nível de água. Em adulto, o ser humano tem entre 55% e 60%, tendo os homens um pouco mais do que as mulheres (o que significa que, se este mito fosse verdade, seriam os homens mais afectados pela Lua do que as mulheres). Ainda assim, isto varia imenso de pessoa para pessoa, de acordo com a sua alimentação, ambiente em que vive, etc.

- Em Astrologia, a Lua representa a mulher, e o ciclo da Lua à volta da Terra corresponde ao ciclo menstrual das mulheres.

Este é mais um mito defendido por “astrólogos” pouco informados. Simplesmente, fazem uma comparação a algo que “soa bem” ou “faz sentido” e começam a regurgitar a informação como se fosse facto.

Em primeiro lugar, a Lua tem dois ciclos: o Sideral e o Sinódico.

O ciclo Sideral (assim chamado porque corresponde ao percurso completo da Lua à volta da Terra, com as estrelas como ponto de referência) é de 27 dias, 7 horas, 43 minutos, e 11 segundos – ou 27,25 dias, para simplificar – e equivale a 13º de movimento no Zodíaco.

Porém, ao longo desses 27 dias, o Sol também avança no Zodíaco (ou melhor, a Terra é que avança mas, em termos geocêntricos, dizemos desta forma – embora o resultado prático seja o mesmo), o que significa que a Lua terá que levar mais algum tempo (cerca de 2 dias) até parecer estar na mesma Fase Lunar que estava quando começou o ciclo (de uma Lua Nova até outra Lua Nova, por exemplo). A este segundo ciclo, chamamos Sinódico.

O ciclo menstrual das mulheres, porém, não é fixo e, embora se diga que a média seja de 28 dias (que cai, de facto, no ponto intermédio entre os dois ciclos Lunares), são poucas as mulheres que, realmente, têm essa periodicidade de forma natural. Aliás, em termos médicos, só se considera, por exemplo, a Polimenorreia e a Oligomenorreia quando o ciclo menstrual da mulher é inferior a 21 dias, ou superior a 35, respectivamente (sendo qualquer período intermédio considerado “normal”, bem entendido).

Para alguns, aquele pormenor da média do ciclo menstrual calhar no ponto intermédio dos dois ciclos lunares será motivo suficiente para saltarem da cadeira a gritar “mas isso é a prova que estão ligados!!” Não… é a prova que são crédulos, só isso.

Dadas as devidas distâncias, a lógica deste mito é semelhante a dizer “a bateria do meu telemóvel vai sempre abaixo quando falo mais de 4 horas seguidas nele, mas dura vários dias quando o uso para outras coisas sem falar, logo, é o som da minha voz que gasta a bateria do telemóvel”.

Só porque algo “parece” não significa que “seja”. É por isso que tudo deve passar pelo rigor da metodologia científica, caso contrário, não passa de crença.

Nem sequer preciso abordar a questão das mulheres que, por questões de idade (e não só), não têm um ciclo menstrual de todo, pois não?

Conclusão: apesar dos períodos terem durações semelhantes, não há qualquer correspondência entre um fenómeno e outro.

- Segundo os astros, quando vou morrer?

Aquilo que se sabe hoje em dia é que este tipo de informação não tem resposta possivel, de todo.

Talvez a prova mais flagrante disso esteja no facto de pessoas que nasceram no mesmo minuto, e até no mesmo segundo, não morrem na mesma data – aliás, as mortes são até bem dispersas pelo tempo.

De uma certa forma, voltamos à velha questão do “Destino vs Livre-Arbítrio” que já abordei há alguns meses. A morte não é algo que escolhemos (na maior parte das vezes), mas é o resultado do que fizémos antes de lá chegar.

Conclusão: a menos que haja uma técnica “perdida” que não envolva o Horóscopo Natal, o que podemos dizer é que não há conhecimento de tal informação ser acessível através da Astrologia.

———

Haverão, certamente, muitos mais pequenos mitos e falácias como estas que apresentei hoje mas ficarão para outro dia. Por hoje, espero que saiam daqui bem mais esclarecidos do que quando chegaram.

Até à próxima.

Sábado, 7 Março 2009 - Publicado por Carlos | Astrologia, Desmistificação | , , , , , , , , | 1 Comentário

1 Comentário »

  1. achei ótimo o conteudo exibido.
    Parabéns

    Comentário por Nathália Lira | Domingo, 29 Março 2009


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