Ano do Búfalo
Devo dizer, desde já, que os meus conhecimentos de Astrologia Chinesa são extremamente limitados. Contudo, num blog onde dou abertura a todo o tipo de abordagem astrológica, seria um pouco estranho não fazer uma menção especial ao começo do Ano Novo chinês, que começou esta semana, mais exactamente, no passado dia 26.
Não tenho intenção de fazer deste texto uma explicação completa das origens da Astrologia Chinesa, mas é interessante saber que, ao contrário da Astrologia Ocidental, que se inspira no nome de certas constelações para nomear os doze segmentos do Zodíaco num Horóscopo, a Astrologia Chinesa inspira-se em lendas.
A mais simples e, talvez por isso, a mais conhecida, é a que diz que Buda, quando sentiu que estava próximo do momento em que iria deixar a Terra, fez um convite a todos os animais do mundo, mas só 12 responderam para se despedirem dele, o que levou Buda a dedicar um ciclo anual a cada um deles, pela ordem de chegada, como forma de agradecimento.
A segunda lenda, um pouco mais complexa, mas mais divertida – até porque apresenta algumas das características dos Signos – é a que diz que o Imperador de Jade enviou um convite aos animais do seu reino prometendo um banquete aos 12 que chegassem primeiro. No percurso havia um rio que teria que ser atravessado. Os primeiros a chegar a esse rio foram o Rato e o Gato mas, como ambos não nadavam bem, resolveram esperar pelo próximo animal, que foi o Búfalo, para pedir boleia às costas deste. O Búfalo, sendo afável, concordou e levou-os. No entanto, o Rato, sendo traiçoeiro, resolve empurrar o Gato para a àgua, desta forma, eliminando o único que o poderia vencer em corrida.
Chegando ao outro lado do rio, o Rato, agora o mais rápido, foi o primeiro a chegar, seguido do Búfalo. Atrás deles, surge o Tigre que, com a sua grande força, também conseguiu vencer o desafio do rio sozinho, sem precisar de ajuda. Em quarto lugar chega o Gato que descreve como quase se afogou até ter encontrado um tronco de árvore ao qual se agarrou e, por sorte, levou-o até à margem oposta.
Em quinto lugar, chegou o Dragão que, apesar de ser o único a poder voar, chegou um pouco tarde porque teve que fazer chover de forma a ajudar todas as pessoas e animais do planeta e que, a caminho do banquete, reparou num gato agarrado a um tronco num rio e teve que parar para criar vento que levasse o gato para a segurança da terra.
Entretanto, chegou o Cavalo mas este, distraído, não tinha reparado que a Serpente tinha-se enrolado numa das suas patas, assusta-se, e fica em sétimo lugar, deixando a Serpente passar-lhe à frente e chegar em sexto. Pouco tempo depois, chegaram juntos a Cabra, o Macaco, e o Galo. Estes tinham vindo numa jangada que construiram juntos, tendo sido o Galo a dar a ideia, a Cabra a puxar e empurrar a madeira, e o Macaco a trazer lianas das árvores para unir os troncos. Pela dose de esforço, o Imperador dá à Cabra o oitavo lugar, seguida do Macaco em nono, e do Galo em décimo.
Por fim, em décimo-primeiro lugar, chegou o Cão que explicou ter se atrasado porque não queria aparecer frente ao Imperador de Jade sem tomar um bom banho primeiro. Em último lugar chegou o Porco, justificando a demora com o facto de ter tido fome durante o caminho e ter sentido vontade de fazer uma sesta depois de comer (está visto, é Porco à Alentejana).
Origens do Zodíaco à parte, a grande maioria das pessoas acredita que a Astrologia Chinesa é só isso, a definição de um Signo por cada ano. Ora, isso é o mesmo que acreditar que a Astrologia Ocidental é somente o Signo Solar. Aliás, pior. Na abordagem simplista à Astrologia Ocidental, dizer que somos do Signo “Carneiro” ou “Touro” remete-nos a um grupo de pessoas que nasceram no espaço de um mês (mais ou menos), enquanto na abordagem simplista à Astrologia Chinesa somos remetidos a um grupo que abrange todas as pessoas que nasceram no espaço de um ano!
Ao longo dos tempos, alguns “cromos” do Astro-Entretenimento tentaram fazer combinações destas simplificações, para criar a ilusão de maior complexidade, mas o resultado é, obviamente, decepcionante – e tinha mesmo que o ser, visto que a Astrologia Ocidental tem bases e metodologias bastante diferentes da Astrologia Chinesa, logo, não são facilmente comparáveis.
Uma das principais diferenças é a utilização de um calendário diferente, ou melhor, “calendários” porque a Astrologia Chinesa usa dois.
Primeiro, notem que no Ocidente, utilizamos o tradicional Calendário Solar, que foi inventado no ano 46AC por Júlio César, e daí ser chamado de “Calendário Juliano” que, mais tarde, foi modificado pelo Papa Gregório XIII, em 1582, daí passar a chamar-se “Calendário Gregoriano”, e que tem sido utilizado até hoje. Infelizmente, este calendário sofre de uma clara falta de exactidão, visto que o período de translação da Terra não é muito exacto (uma translação completa dura 365 dias, e 6 horas, e são estas horas extra que, ao fim de 4 anos, dão origem a um dia inteiro (4*6=24), daí a existência dos anos bissextos que servem para “acertar” o Calendário Solar).
Na Astrologia Chinesa, porém, utiliza-se uma combinação do Calendário Solar com o Calendário Lunar, onde as regras ditam que o Solstício de Inverno deve ocorrer no 11º mês do ano, e o Ano Novo deve ocorrer na 2ª Lua Nova após esse Solstício (é por isso que o Ano Novo chinês nunca tem um dia fixo para começar, variando entre o final de Janeiro e princípio de Fevereiro).
Como curiosidade, o Feng-Shui é uma disciplina que está intimamente ligada à Astrologia Chinesa, e tem o seu próprio calendário (ciclos de 180 anos, divididos em 9 períodos de 20 anos cada). Apesar disso, é curioso verificar que existem imensas tentativas de conjugar o Feng-Shui moderno com a Astrologia Ocidental. Sinceramente, não conheço muito de Feng-Shui, por isso, não sei até que ponto os seus resultados são verificáveis ou não, muito menos como conseguem juntar isso à Astrologia Ocidental, mas, de acordo com Brenda Keener, uma especialista em Feng-Shui e Astrologia Chinesa, todos os livros de Feng-Shui escritos até 2004 estão, provavelmente, obsoletos porque foi em Fevereiro de 2004 que entramos no 8º período desse calendário e, aparentemente, as sugestões auspiciosas durante o 7º período (1984-2003) já não são actuais.
De qualquer forma, para não me dispersar mais, voltemos à Astrologia. Outra diferença fundamental, é a questão dos Elementos. Na Astrologia Ocidental, os 4 Elementos são representações das energias que servem de fundação para toda a matéria. Na Astrologia Chinesa, o termo “Elemento” tem um significado bastante diferente, e alguns especialistas dizem mesmo que trata-se de um erro de tradução do símbolo chinês que devia ser “metamorfose” ou algo parecido. O impacto de um “Elemento” em Astrologia Chinesa tem portanto uma característica completamente distinta do Signo. Por exemplo, em Astrologia Ocidental, Carneiro, Leão, e Sagitário são sempre Signos de Fogo. Em Astrologia Chinesa, todos os 12 Signos têm todos os 5 Elementos (ou “Metamorfoses”), mas em períodos diferentes do calendário.
Todos os 5 Elementos, por sua vez, dividem-se nas Polaridades – Yang e Yin – ao contrário da Astrologia Ocidental onde o Fogo e Ar são sempre Masculinos, enquanto Terra e Água são sempre Femininos. É curioso notar que, hoje em dia, alguns astrólogos Ocidentais “roubaram” esta terminologia aos chineses para usar como substituto na definição das Polaridades astrológicas ocidentais (que, normalmente, chamamos de Masculino e Feminino, ou Activo e Passivo, etc).
Esta combinação de 12 Signos a multiplicar pelos 5 Elementos, dá o ciclo completo do Calendário Lunisolar (combinação do Calendário Lunar com o Calendário Solar, dividido em ciclos de 60 anos). Todos os ciclos deste calendário começam com o “Rato de Madeira Yang” e terminam com o “Porco de Água Yin”, o que significa que o ciclo actual começou em 2 de Fevereiro de 1984, e entrámos agora no 26º ano do ciclo Lunisolar – “Búfalo de Terra Yin”.
O que é que isto significa? Bem, provavelmente, nada. Tal como é ridículo afirmar que o ano vai ser de uma determinada maneira com base num Signo Solar, presumo que o mesmo possa ser dito das previsões para um Signo chinês. Para além disso, em Astrologia Chinesa, o nascimento é marcado pelo Signo, Elemento e Polaridade do Ano, do Mês, do Dia, e da Hora – o que, de facto, dá uma combinação, aparentemente, mais única e individual.
Mesmo assim, como as descrições do Signo Chinês “Búfalo” são muito parecidas às do Signo Ocidental “Touro” (especialmente, nesta versão de “Terra Yin”), poderíamos extrapolar que o ano será lento e resistente à mudança, com ênfase no materialismo e nos prazeres dos sentidos. Hmm… dado que estamos no meio de uma crise económica, à escala mundial, é dificil dizer que não a esta previsão, não é? De qualquer forma, como disse no começo deste texto, não é a minha especialidade, por isso, não me alargo mais. Talvez para o ano, quando entrarmos no ano do “Tigre de Metal Yang” eu saiba mais um bocadinho sobre Astrologia Chinesa.
Até à próxima.