Aspectos – 1
Em Astrologia, damos o nome de “Aspecto” a qualquer ligação geométrica (ângulo) entre dois Planetas, ou entre um Planeta e um Ponto Calculado. Aproveito para esclarecer que só os Planetas é que são considerados “emissores” de influências, não os Pontos Calculados. Logo, quando dois Planetas estão em Aspecto, eles afectam-se mutuamente (com algumas excepções, que indicarei mais tarde), mas se o Aspecto for entre um Planeta e um Ponto Calculado, então só este último é que é afectado.
Hoje em dia, podemos dividir os Aspectos Astrológicos em dois tipos: Ptolemaicos e Keplerianos, mais conhecidos como “Maiores” e “Menores”, respectivamente. Contudo, nos últimos anos, alguns astrólogos começaram a considerar um terceiro tipo, a que chamam Addeyanos, ou “Ternários”.
Note-se que “Maior”, “Menor” e “Ternário” são termos musicais, e não relativos à dimensão ou importância do Aspecto – como alguns astrólogos, por ignorância, afirmam quando escrevem sobre o assunto.
Os Aspectos Ptolemaicos têm este nome em homenagem a Claudius Ptolemaeus, que viveu no século II e foi – como muitos sábios da altura – uma mistura de matemático, astrónomo e, claro, astrólogo. Ele é conhecido por ter escrito vários livros científicos, sendo um deles sobre Astrologia: o Tetrabiblos.
Existem, pelo menos, dois argumentos que explicam a importância deste livro. Primeiro, temos o valor e credibilidade do autor, que ainda hoje é conhecido como um dos grandes nomes da ciência desse tempo. Segundo, como existem muito poucos registos sobreviventes de Astrologia anteriores à publicação do Tetrabiblos, este livro passou a ter um valor histórico incomparável.
Na verdade, já ouvi alguns críticos da Astrologia, utilizarem frases do género “quando Ptolemeu inventou a Astrologia…”, o que está errado, e é mais um sinal da ignorância que prevalece entre aqueles que a criticam. Claudius Ptolemaeus não inventou a Astrologia, ela já existia há milhares de anos antes de ele nascer. O que ele fez foi uma síntese do conhecimento astrológico da altura, e filtrou isso através dos seus próprios estudos e opiniões – como, aliás, fazem a maior parte dos astrólogos.
De qualquer forma, é através do trabalho dele que sabemos que já usavam Aspectos nessa altura, mas só os seguintes:
- Conjunção (0º ou 360º)
- Oposição (180º)
- Trígono (120º)
- Quadratura (90º)
- Sextil (60º)
A “lógica” dada para estes Aspectos era muito mais orgânica do que aquela que temos hoje em dia. Acreditava-se que os Planetas tinham uma espécie de “campo de visão”, tal como um ser humano, daí o Aspecto mais forte e negativo ser a Oposição porque a luz do outro Planeta está directamente à nossa frente, barrando o caminho, ou ofuscando a visão do outro Planeta. O Trígono já era um “bom” Aspecto porque está frontal o suficiente para ser facilmente visivel, mas deslocado o suficiente para não atrapalhar o caminho ou visibilidade do outro Planeta. Enquanto a Quadratura obriga o Planeta a desviar o olhar para o lado, perdendo a noção do caminho em frente, e o Sextil está tão no limite do campo de visão que não atrapalha mas ainda serve para orientar o Planeta dos limites que o rodeiam (daí ser considerado um Aspecto informativo mas relativamente fraco). A Conjunção acaba por ser o Aspecto mais “romântico”, porque é associado a dois Planetas que, juntos, olham na mesma direcção, reforçando-se um ao outro. É também por isto que a Conjunção é o único Aspecto considerado “neutro” (o efeito dependente da natureza dos Planetas), enquanto os outros são divididos entre “bons” e “maus”.
Contudo, na passagem do século XVI para XVII, surgiu um outro homem que tentou revolucionar a Astrologia, chamado Johannes Kepler, um Capricorniano alemão que era matemático, astrónomo… e astrólogo – soa familiar? Muitos apontam-no como o último astrólogo Tradicional Clássico, visto que foi exactamente no século XVII que a Astrologia Tradicional foi removida das universidades e tornou-se, oficialmente, defunta, mas podemos dizer também que Kepler foi o primeiro astrólogo moderno, pois ele colocou em causa praticamente tudo o que os astrólogos até então afirmavam, mostrando-se rebelde, contestatário, e até arrogante, pondo em causa o Zodíaco, as Casas, e muito mais.
Certos astrólogos, que seguem abordagens mais filosóficas e espirituais, propõem a teoria de que Kepler surgiu nessa altura exactamente para dar nova vida à Astrologia, e acabar com a estagnação que tinha sido criada no seio da disciplina mas, como hoje sabemos, o esforço dele não foi suficiente para actualizar a Astrologia. Apesar disso, os estudos dele induziram a muito do que hoje chamamos de “Astrologia Moderna”, e destaca-se a conclusão de que existem, pelo menos, três outros Aspectos importantes a serem considerados num Horóscopo, que são:
- Quintil (72º)
- Bi-Quintil (144º)
- Sesquiquadratura (135º)
Uma das razões para chegar a esta conclusão tem a ver com a divisão natural de uma circunferência (360º). Ora, se a Oposição é a divisão da circunferência em 2 (360/2=180), o Trígono é a divisão da circunferência em 3 (360/3=120), e a Quadratura representa a divisão da circunferência em 4 (360/4=90), porquê saltar logo para o Sextil na divisão da circunferência em 6 (360/6=60)? Por outras palavras, porque não uma divisão da circunferência em 5 (360/5=72) ou outros números? Nasceu então a teoria das “Harmónicas” (mais um termo musical, reparem bem). Se tiverem interesse em aprofundar o estudo de Kepler neste sentido, sugiro veementemente o livro “Harmonices Mundi” (traduzido para inglês como The Harmony of the World“, mas é possível que esteja disponível em outras linguas).
Desde então, quase todos os astrólogos de renome internacional como William Lilly, Michel Gauquelin, Alfred Witte, e muitos outros, desenvolveram teorias e interpretações com base no trabalho de Johannes Kepler.
Claro que Kepler não se baseou só no cálculo geométrico, mas também na observação dos Aspectos e dos resultados práticos que ficaram demonstrados, e na analogia às escalas de música. Aliás, ele propôs vários outros Aspectos mas, mais tarde, rejeitou-os porque não se encaixavam nesta teoria das harmonias musicais – o Septil (360/7=51,428571[...]), por exemplo, é dissonante.
Apesar disso, no século XX, alguns astrólogos, dos quais destaca-se o britânico John Addey, começaram a dar maior importância a alguns desses Aspectos dissonantes, pegando na teoria original das Harmónicas e expandindo-as – dando vida ao tal terceiro grupo de Aspectos, a que chamamos de “Ternários” (ou Addeyanos).
Enfim, basta de História da Astrologia. O que interessa saber é o que funciona ou não, e como. Porém, antes de começar a mandar “bitaites”, é preciso fazer uma passagem pelo Zodíaco, para que se entenda um pouco da origem das interpretações dos Aspectos.
Ao longo dos anos, já encontrei alguns livros de introdução à Astrologia que, algures na secção de “Signos”, afirmam que cada um dos 12 Signos do Zodíaco correspondem a um grupo de graus na Roda Zodiacal, ou a um grau específico dessa Roda. Contudo, em poucos casos, afirmam que é devido a isso que as Casas Astrológicas têm um significado semelhante ao Signo correspondente (o que não é bem verdade, e só faria sentido no Sistema de Casas Iguais) e, na maioria dos casos, nem sequer explicam a importância dessa associação, passando rapidamente ao capítulo seguinte.
Eis a listagem que, de uma forma ou outra, vos deve ser familiar:
- CARNEIRO = 0º ou 360º
- TOURO = 30º
- GÉMEOS = 60º
- CARANGUEJO = 90º
- LEÃO = 120º
- VIRGEM = 150º
- BALANÇA = 180º
- ESCORPIÃO = 210º
- SAGITÁRIO = 240º
- CAPRICÓRNIO = 270º
- AQUÁRIO = 300º
- PEIXES = 330º
Para alguns, este é o momento em que se acende uma lâmpada em cima da cabeça. Vamos confirmar isso.
A Conjunção é descrita como um Aspecto de começo, onde se inicia um novo ciclo, onde os dois Planetas ganham força e impulso (Carneiro). A Oposição é descrita como um Aspecto de confronto, onde dois pólos que se opõem devem encontrar um equilíbrio, e onde há quase sempre um encontro com outra pessoa que vai representar um desses pólos enquanto nós representamos o outro (Balança).
Os restantes Aspectos, porém, têm duas interpretações, dependendo de estarem em fase Crescente ou Minguante. O Trígono, por exemplo, tem a sua interpretação associada a termos como “criatividade” (fase Crescente, ou seja, Leão) ou “facilitismo” (fase Minguante, ou seja, Sagitário). Infelizmente, o que acontece com alguns astrólogos é que parecem não saber disto e então, não só não distinguem entre as duas fases do Aspecto, como tendem a extrapolar outros significados com base na experiência pessoal – o que, por sí só, não está errado, mas sem conhecer as bases, ou sem ter um método-base como ponto de partida, tende a dar resultados pouca credíveis.
Agora, isto levanta uma questão importante:
- Se cada Signo cobre 30º do Zodíaco, como diferenciamos, por exemplo, um Sextil de um Quintil, visto que ambos pertencem ao segmento Zodiacal de Gémeos, na fase Crescente?
Através dos Decanatos. Neste exemplo, um Sextil Crescente é, sem dúvida, associado a Gémeos, duas vezes, visto que o primeiro Decanato de Gémeos é regido por Mercúrio. Porém, o Quintil, está associado ao segundo Decanato de Gémeos, regido por Vénus, daí ser um Aspecto que costumamos interpretar como um “talento artístico” nos Horóscopos Natais de uma pessoa. Já agora, em fase Minguante, notem que o Quintil pertence ao segundo Decanato de Capricórnio, ou seja, regido por… Vénus (outra vez)! Surpresos?
Isto tráz-me a um assunto que eu levantei há algumas semanas atrás, quando expressei a minha opinião sobre alguns astrólogos populares, nomeadamente, Noel Tyl. Nesse texto, um dos pontos que mencionei foi a respeito desse senhor clamar que descobriu um Aspecto importante, de 165º, a que chamou de “Quindecile”. Não aprofundei muito o assunto, prometendo que o faria quando falasse de Aspectos (e estou a fazê-lo, finalmente), mas ainda disse que o principal problema é que já havia um Aspecto com o mesmo nome, mas de 24º, como representante principal da décima-quinta Harmónica (360/15=24).
Agora que estamos familiarizados com as bases de interpretação de um Aspecto, podemos ver com mais clareza que estes dois Aspectos têm muito pouco, ou nada, em comum. O Quindecile Crescente está associado ao terceiro Decanato de Carneiro (Júpiter), e Minguante está associado ao terceiro Decanato de Peixes (Marte e, possivelmente, Plutão). Por outro lado, o Aspecto de Noel Tyl (sinceramente, nem sei o que lhe hei-de chamar… “Noeltile”?) em fase Crescente está associado ao segundo Decanato de Virgem (Saturno), enquanto na fase Minguante está associado ao segundo Decanato de Balança (Saturno). Não é de admirar que Noel Tyl descreva este Aspecto como um ponto de obsessão e rigidez, visto que o perfecionismo do segundo Decanato de Virgem é levado ao extremo quando ligado a Saturno, mas parece que a fase Minguante deste Aspecto tem uma vertente mais ligada a um sentido de ordem, justiça, e equilíbrio exacerbado por alguma tendência a querer impõr esses valores no exterior.
Chegamos então ao momento em que vou partilhar de uma teoria exclusivamente minha, e que é a seguinte:
- Todos os Planetas estão em constante Aspecto.
O que muda é a forma e magnitude do Aspecto (isto pode encaixar na teoria de Ressonâncias levantada pelo astrofísico poláco, Slawomir Stachniewicz, que referi no texto “Uma Abordagem Científica“, há duas semanas atrás).
Esta teoria acaba, também, por propôr uma alternativa à teoria das Orbes. Em Astrologia, já todos percebemos que as coisas não acontecem só quando um Aspecto está em posição exacta, e justificamos isso com o conceito de “margem de acção”, mas talvez não seja por acaso que o tema das Orbes seja dos mais polémicos e varia tanto de astrólogo para astrólogo. Talvez o que aconteça seja uma configuração muito mais complexa e subtil de Ressonâncias entre Planetas que só é observada quando levamos em consideração todas as variações Harmónicas possíveis num Horóscopo.
De qualquer forma, não vou aprofundar agora este assunto. Já têm aqui muito para digerir mas, num futuro texto, continuarei a falar de Aspectos, aprofundando o assunto das Orbes, mas também abordando as Dissociações, e o efeito dos Aspectos fora dos Horóscopos Natais.
Até à próxima.
Ainda sem comentários.