Astrologia

Ciência e Educação

Uma Abordagem Científica

Esta semana decidi apresentar um texto totalmente dedicado ao estudo da Astrologia numa perspectiva de ciência exacta. Faz sentido se pensarmos que eu já apresentei textos virados para o lado mais filosófico da Astrologia, por isso, é justo mostrar o lado oposto da Astrologia.

Quem me conhece, sabe que a minha visão da Astrologia recai algures no centro. Entendo a Astrologia como uma ciência social, que tem um lado “matemático” inegável, mas também um lado mais humano que a coloca ao nível da Psicologia, Sociologia, e disciplinas similares. De qualquer forma, nunca fecho os olhos ao que está “à volta” porque, nunca se sabe, pode ser útil para entender a Astrologia como um todo, sem restringí-la a um único rótulo.

Para esse efeito, decidi fazer a tradução de alguns excertos escritos pelo astrofísico polaco Slawomir Stachniewicz. Não, não é um dos grandes nomes credenciados a nível mundial, mas lembrem-se que é complicado encontrar cientistas que tenham os testículos para admitir que a Astrologia pode e deve ser investigada seriamente. Há dois motivos para eu ter escolhido traduzir os seus textos para este blog:

1 – Os testes que ele faz e propõe a nível dos Aspectos astrológicos são uma excelente introdução ao que eu tenciono escrever sobre este tema (Aspectos) já na próxima semana.

2 – Penso que fica demonstrado como a Astrologia podia dar um verdadeiro salto qualitativo se mais profissionais de outras ciências resolvessem trabalhar com os astrólogos.

Aviso que o texto pode ser um pouco “denso” para quem não está familiarizado com a os princípios básicos do estudo científico, mas eu vou fazendo alguns comentários pelo caminho para ajudar a “engolir” o conteúdo.

Nós podemos dividir os astrólogos em três tipos: teorizadores, experimentalistas e praticantes. Teorizadores criam novas teorias, experimentalistas verificam-nas e praticantes interpretam horóscopos. A grande maioria dos astrólogos são praticantes, e alguns deles são também teorizadores, mas não há quase nenhuns experimentalistas. Na minha opinião, esta é uma das maiores fraquezas da astrologia de hoje em dia – falta de verificação directa.

Este trecho é particularmente curioso para mim porque há alguns anos que eu digo que divido as saidas profissionais da Astrologia em três grupos: praticantes, professores, e pesquisadores. Não há qualquer diferença entre aquilo que eu e ele consideramos “praticantes” de Astrologia, mas há uma diferença em relação àqueles que ele chama de “experimentalistas” e eu chamo de “pesquisadores”, que é o facto de eu considerar um pesquisador alguém que teoriza e procura verificar a sua teoria ao mesmo tempo – nem me faz sentido que seja de outra forma – enquanto ele divide aqueles que criam as teorias, por um lado, e aqueles que as testam, por outro. De facto, ele tem razão, pois é um facto que, no mundo da Astrologia praticada actualmente, existem imensos astrólogos que inventam teorias, mas pouco ou nada investem em processos de verificação – alguns passando a assumir essas teorias como factos só porque “sentem” que estão correctas.

Por outro lado temos os cientistas, em especial os astrónomos – que ficam frequentemente loucos só de ouvir a palavra astrologia. Felizmente, nem todos os cientistas pensam que crenças astrológicas são criadas pela fantasia porque não têm nem podem ter qualquer substância científica. Alguns tentam verificar a astrologia estatisticamente, mas normalmente fazem-no da forma errada. Porquê? Porque pegam em astrólogos mais ou menos conhecidos e observam se fazem bons horóscopos. É errado porque isto só testa o conhecimento do astrólogo

Por acaso, nos últimos anos têm surgido alguns “testes”, supostamente, científicos feitos na base da estatística (que é o método mais adequado para demostrar a validade da Astrologia). Infelizmente, quem os faz são indivíduos que não são astrólogos, ou são daqueles pseudo-astrólogos que fazem previsões para so Signos Solares. Resultado? Concluem que ter o Sol em Carneiro, Touro, Gémeos, ou qualquer outro Signo, não determina qualquer resultado concreto. Uau… grande novidade. Infelizmente, para quem leva a sério esses testes, isso é “prova” que a Astrologia (como um todo) não passa de uma crença, ilusão, superstição, etc.

Eu não tenho ouvido falar de qualquer tentativa de criar uma teoria científica de Astrologia – talvez este artigo possa servir como contributo no sentido de criar tal teoria. Para além disso eu tento indicar o que deve ser tido em conta e o que deve ser feito prioritariamente neste tipo de pesquisa.

Aqui começamos, finalmente, a falar de Aspectos. Nesta abordagem, a Astrologia é medida através de funções trigonométricas.

Eu penso que os planetas interagem uns com os outros mas esta interacção é muito mais forte em certos valores (ressonância). Não é claro de onde vem esta ressonância – eu suponho que tem algo a ver com ondas e harmónicas (1:1 ou 360º – Conjunção, 1:2 – Oposição, 1:3 – Trígono, etc)

Agora é uma boa altura para fazer uma descrição matemática destes fenómenos. As ressonâncias podem ser apresentadas utilizando curvas de intensidade. A sua forma é normalmente uma curva de Lorentz definida pela equação

y = a / ( 1 + (x/b) ^2 )

onde a e b descrevem a intensidade e distância da curva. Outra distribuição comum é a Gaussiana definida pela equação

y = a * exp ( -1/2 (x/b) ^2 )

mas que é aplicada normalmente para descrever fenómenos aleatórios como erros de distribuição

Eis o gráfico de comparação entre a Curva de Lorentz e a Curva Gaussiana, onde x=0 y=1 e x=+/-1 y=0.5 (a mesma intensidade e a mesma distância a metade da intensidade):

Curva de Lorentz vs Curva Gaussiana

(Clicar na imagem para aumentar)

Agora vamos pensar na natureza desta ressonância. A situação é um pouco complicada: não só temos a intensidade mas também aspectos considerados como bons, maus ou neutros (Eu penso que bons implicam menos dificuldades e maus mais, a melhor situação é quando existe mais ou menos um equilíbrio entre eles – demasiados bons aspectos tornam a pessoa preguiçosa, ele (ou ela) não alcança nada de significativo ao longo da vida ou desiste facilmente em caso de dificuldades). Claro, o mais forte é o de ressonância 1:1 (conjunção) e é neutro (o resultado dependa da natureza dos planetas). A ressonância 1:2 (oposição) dá efeitos negativos, 1:3 (trígono) positivos, 1:4 (duplo 1:2 ou quadratura) dá efeitos mais fracos que 1:2 mas mais negativos etc. Parece que:

- ressonância 1:2 é negativa, 1:3 é positiva, 1:4 é negativa, 1:5 é positiva, etc.
- quanta mais alta a ressonância mais fraca a influência (oposição é mais forte que o trígono mas mais fraca que a conjunção etc.)
- juntar as ressonâncias enfraquece o efeito (quadratura é mais fraca que a oposição, sextil e novil são mais fracos que o trígono)
- podemos somar e subtrair aspectos e isso afecta-os, por exemplo a inconjunção (150=180-30) é aproximadamente tão forte como um semi-sextil mas negativo, a sesquiquadratura (135=180-45=90+45) é semelhante à semi-quadratura (atenção, nesta “teoria” o biquintil seria mais fraco que o quintil e a sesquiquadratura seria aproximadamente tão forte quanto a semi-quadratura mas mais negativa etc.)
- um aspecto que represente a soma de outros é mais fraco, mas se dois ou mais aspectos distintos coexistem, a mesma operação pode afectar (fortalecendo ou enfraquecendo) a sua influência – uma oposição fica fortalecida por duas quadraturas mas três sextis ou um trígono+sextil tornam-na mais moderada etc.

Até aqui nada de novo. Todos os astrólogos decentes sabem disto tudo há séculos (literalmente), mas poucos tentaram colocá-lo em fórmulas matemáticas para estudo e análise. Convém também frisar que este texto foi publicado há cerca de treze anos atrás (1996) e, provavelmente, escrito muito antes disso. Nestes textos, o senhor Slawomir admite basear-se essencialmente no conhecimento da Astrologia Tradicional Clássica porque foi isso que Michel Gauquelin usou para provar o “Efeito de Marte” (o maior teste científco alguma vez feito, até ao presente, em relação à validade da Astrologia). Isso é óbvio quando o vemos a falar de Aspectos “bons” e “maus”. Na Astrologia Moderna, já se entende que não há nenhum tipo de julgamento de valores feito pelos Planetas, ou os seus Aspectos, porque isso são conceitos psicológicos do ser humano.

Como podemos ver, os aspectos interpenetram-se e descrever essa interacção (interferência) seria complicado. Claro que, por exemplo, a influência de uma oposição ligada a seis semi-sextis poderia ficar inalterada. Além disso, podemos adicionar e dividir aspectos sem parar e isso iria criar algum panorama – seria possivel verificar apenas os efeitos dos aspectos mais fortes, enquanto outros seriam insignificantes. Por exemplo, o binovil poderia ser tão fraco que torna-se impossivel distingui-lo do panorama. Outro efeito poderia ser que adicionar tantas combinações de aspectos poderia fazer estas curvas parecerem mais com a Gaussiana do que com a de Lorentz. É bastante complicado e mesmo que tenhamos muitos dados empíricos pode ser dificil construir uma boa teoria.

Esta é, sem dúvida, uma boa forma de exemplificar o “porquê” de ainda não haverem múltiplos testes científicos na área da Astrologia. Para a massa ignorante, não lhes ocorre que há todo um número de variáveis que têm de ser consideradas num estudo astrológico – e notem que estamos SÓ a falar de Aspectos.

É também aqui que começamos a ver que o factor humano é, de facto, o que torna a Astrologia numa ciência social e humana, não uma ciência exacta. Para além de todas as variantes possiveis, e das quais só algumas foram referidas acima, temos ainda que considerar o contexto do ser em análise. Duas pessoas podem ter, de facto, um Horóscopo igual, ao segundo, no entanto, se um nasceu na familia x e outro na familia y, logo aí, têm um contexto diferente a vários níveis: familiar, social, cultural, moral, etc.

Antes de termos uma teoria que descreva aspectos na totalidade eu sugiro a seguinte solução:

- acima de tudo, verificar estatisticamente o significado e força dos aspectos
- introduzir orbes para todos os aspectos; se o dados tradicionais são aceitáveis, então teríamos algo como: conjunção e oposição 9º, quadratura e trígono 7º, sextil 5º, etc (metade da orbe pode ser chamada de meia-distância d)
- introduzir força do aspecto s dependendo do aspecto e planetas
- influência dos aspectos poderia ser descrita como por exemplo s/(1+(dx/d)^2) onde dx é a diferença entre distância teórica (por exemplo 180º para uma oposição) e diferença real das longitudes elipticas. Claro que a fórmula pode ser um pouco diferente mas seriam necessários muitos dados para verificar isso.

Claro que isto é só uma aproximação. A fórmula exacta deverá ser uma combinação de funções trigonométricas.

Agora eu preciso de fazer uma pergunta: será que os aspectos dependem mesmo das diferenças de longitudes elípticas? A elíptica é apenas o plano da órbita da Terra à volta do Sol. Talvez eles não dependam das diferenças de longitude elípticas mas das distâncias angulares reais na Esfera Celeste? Para o Sol, a Lua e os planetas até Neptuno seria quase o mesmo – eles nunca estão muito longe da elíptica (até 5º para a Lua). De facto, haveria uma diferença importante, nunca teríamos conjunções ou oposições exactas (mesmo que a longitude elíptica seja igual haveria alguma diferença nas latitudes). Plutão estaria numa situação diferente – a sua latitude pode atingir +/- 17º portanto na maioria dos casos (latitudes superiores a 10º para norte ou sul) não haveriam nunca conjunções e oposições. Ainda pior com as estrelas – só estrelas perto da elíptica seriam significativas (conjunção!), por exemplo Sirius (b=-39.6°) não seria significativa. Mas não haveriam problemas com objectos perto dos pólos da elíptica (sem longitude elíptica) – eles estariam em quadratura aos objectos na elíptica. Haveria problemas na adição tradicional de aspectos – dois sextis exactos poderiam não dar um trígono exacto (estaria tudo bem se estivessem complanares com a Terra).

Tenho que levantar algumas questões: será que a elíptica tem alguma importância para além do facto dos planetas estarem na sua vizinhança? Talvez devêssemos usar ascensões rectas em vez de longitudes elípticas? E porquê ascensões rectas e não longitudes galácticas? Qual o significado (se algum) do Ponto de Equinócio da Primavera? O que são os Signos do Zodíaco, quais são as suas verdadeiras fronteiras, qual é a distribuição da sua influência? Algumas pessoas afirmam que o Zodíaco são zonas energéticas à volta da Terra ou que os signos têm forças magnéticas. Então talvez devéssemos olhar para pólos magnéticos em vez de geográficos? E qual é a energia dessas zonas – terá alguma ligação com interacções electromagnéticas? Forte? Fraca? Gravitacional? Electrofraca? Talvez com a tal chamada quinta força? Nós podemos excluir a atração gravitacional directa (a influência da mobília seria maior e, por exemplo, a influência de Mercúrio seria 6 milhões de vezes mais fraca que a do Sol. Eu penso que não devemos falar de energias – nós simplesmente não sabemos como funciona e as especulações de alguns astrólogos só aumentam o caos existente. A resposta certa só pode ser dada através de pesquisa científica.

Isto conclui o texto sobre Aspectos. Há um ponto ou outro aqui que, à primeira vista, levaria muitos astrólogos a saltarem e dizerem algo do género “mas nós já temos resposta a isso!” Será que temos mesmo? Temos teorias… montes delas. A maioria são usadas porque fazem sentido e apresentam resultados positivos com frequência mas, ocasionalmente, há falhas e a justificação que muitos encontram, provavelmente para fugir à pesquisa aprofundada do assunto, é que foi “erro do astrólogo”. É verdade que antes de sermos astrólogos somos humanos e, como tal, passíveis de errar. Até os médicos e cientistas de todas as áreas erram, e com mais frequência do que desejaríamos, no entanto, é a nossa obrigação minimizar essa margem de erro. Especialmente numa disciplina como a Astrologia que se propõe a orientar a vida humana.

Por exemplo, errar em Meteorologia não costuma ser grave. O que importa se choveu um pouco num dia em que apenas disseram que estaria nublado? No entanto, em Medicina, Psicologia, Astrologia e áreas similares, a responsabilidade é maior. Por isso é que defendo a vinda do dia em que a Astrologia voltará a ser uma actividade praticada apenas por profissionais credenciados, mas isso é uma outra conversa para um outro dia.

Até à próxima.

Sábado, 10 Janeiro 2009 Publicado por Carlos | Astrologia, Investigação | , , , , , , , | 1 Comentário