Astrologia

Ciência e Educação

Noel Tyl vs Linda Goodman

A semana passada dediquei o texto a responder a uma visitante deste blog a respeito de dois astrólogos populares, Liz Greene e Robert Hand. Nesse texto, acabei por fazer referências a outros astrólogos, como pontos de referência, mas isso despertou mais alguns comentários por parte de outros visitantes, e concluí que devia rematar as pontas soltas para que não ficassem mal-entendidos.

Tal como na semana passada, vou começar pelo mais fácil que, neste caso, é Linda Goodman. Quando me referi a ela, no texto anterior, disse o seguinte:

Se pensarmos em Linda Goodman como a versão americana da nossa Maya, então Liz Greene é a versão americana do nosso Paulo Cardoso.

Eu queria que a frase fosse abrangente o suficiente para não entrar na crítica directa, mas apercebi-me que exagerei e fui abrangente demais. Quando me perguntaram se isto é porque eu tenho elevada consideração pela Maya é que percebi que a frase pode, de facto, ser entendida tanto no sentido positivo como no negativo. Logo, parece-me conveniente esclarecer o que realmente quis dizer.

Em primeiro lugar, Linda Goodman era uma mulher que escrevia frequentemente previsões para publicações periódicas, e eu já escrevi um texto sobre o que penso acerca disso na entrada “Horóscopos” deste mesmo blog.

Em segundo lugar, Linda Goodman era uma mulher que, mesmo fora do contexto das previsões, praticava aquilo que alguns de nós hoje chamamos de “Astrologia Fácil”. Por outras palavras, ela focava-se na importância da posição do Sol nos doze Signos e raramente saia desse nível superficial.

Não é preciso ir muito longe para demonstrar isto. Todos os livros dela são assim, extremamente básicos, e pejados de “asneiras” astrológicas. Embora alguns fãs digam que ela foi alguém que ajudou a Astrologia a tornar-se popular (e até aqui, até pode ser verdade, pelo menos nos EUA), eu acredito que ela teve um papel igualmente relevante a tornar a imagem da Astrologia na patetice que vemos diariamente na comunicação social, e na mente da maioria das pessoas desinformadas.

Agora, temos que ser nós, astrólogos, a desmistificar tudo o que ela, e outros como ela, fizeram durante décadas. Faz lembrar, dadas as devidas distâncias, a questão da SIDA ser transmissivel pelos abraços, ou por respirar o ar de uma sala onde um sero-positivo esteve presente. Alguém lembrou-se de dizer essas coisas no princípio dos anos 80 e, apesar de já ter vindo a comunidade médica em peso dizer que não é assim, ainda há quem pense que pode mesmo acontecer. Engraçado (sem graça nenhuma) que, mesmo aqueles que dizem que acreditam na isenção e profissionalismo dos médicos, acabam por, em grande parte, ter uma reação de receio quando se vêem perante uma situação real dessas. Agora imaginem o esforço que os astrólogos têm que fazer visto que não beneficiamos sequer do mesmo nível de confiança que a comunidade médica desfruta.

Ironicamente, já depois da morte de Linda Goodman, foi lançado o livro “Linda Goodman’s Star Cards: A Divination Set Inspired by the Astrological and Numerological Teachings of Linda Goodman” que é, basicamente, um livro de Tarot, com misturas de Astrologia e Numerologia. Será que esta salada lembra-vos alguém?

Antes que alguém pegue no argumento que o livro acima está sob o nome de Crystal Bush, adianto já que, sim, eu sei disso, mas o livro apenas foi publicado por ela, com alguns acréscimos. O conteúdo, propriamente dito, foi originalmente escrito por Linda Goodman, simplemente, não tinha sido publicado enquanto estava viva.

Quem faz alguma pesquisa sobre a biografia da senhora vai encontrar muito mais por onde pegar, mas o meu objectivo aqui não era dissecar o carácter da senhora, e sim justificar porque a vejo como uma versão americana da nossa cintilante Maya. Certamente que era uma mulher com outras qualidades, aliás, dizem muito bem dela como poeta e escritora… mas, como astróloga, não, obrigado.

Passemos então a Noel Tyl.

Parece que ninguém é alheio ao facto de Noel Tyl ser um homem que dá espectáculo e, para quem já sabe um pouco sobre Astrologia, rapidamente surgem as justificações para isto – ele tem Ascendente Caranguejo, ou seja, com o seu Horóscopo regido pela Lua e esta, por sua vez, está em Leão, disposta por um Sol em Capricórnio que está na Casa 7 e em Conjunção a Júpiter, também este em Capricórnio e na mesma Casa. Traduzido de astrologês para português, poderíamos dizer que trata-se de alguém que precisa brilhar aos olhos dos outros para se sentir útil e realizado.

De qualquer forma, isto em sí, não é nenhum problema. Com configurações semelhantes existem muitos. A forma como ele tem lidado com a sua natureza é que deixa algo a desejar. Mais uma vez, não vou dissecar a vida do homem, mas vou dar alguns exemplos daquilo que me refiro.

Um dos exemplos mais prementes é o episódio do lançamento do livro “Predictions for a New Millennium” em meados dos anos 90. Nesse livro, Noel Tyl resolveu tentar ser o próximo Nostradamus e arriscou publicar uma série de previsões fantásticas que, se tivessem ocorrido, teriam sem dúvida catapultado a sua fama para níveis incomensuráveis. O problema é que, como a maioria dos pseudo-astrólogos que volta e meia aparecem a prever desastres ou outros fenómenos de grande impacto, a grande maioria das previsões dele falharam, e aquelas que “bateram certo” são, em grande parte, referidas como de fácil previsão até para quem não sabe nada de Astrologia.

É curioso reparar que se formos ao espaço oficial de Noel Tyl, este livro nem sequer é referido. Não é de surpreender, visto que foi um falhanço, e Noel Tyl tem-se esforçado bastante para meter esse erro debaixo do tapete para ninguém ver. No entanto, hoje em dia, a internet guarda registo de quase tudo e ainda podemos encontrar algumas pérolas como este comentário no espaço da Amazon americana:

Este livro não vale nem como papel higiénico. Nem UMA das suas previsões tornou-se realidade. A maioria são risíveis. Umas poucas destas previsões, baseadas em desfechos óbvios que QUALQUER UM poderia prever (como o divórcio de Carlos e a Princesa Diana) e, na verdade, foram previstas no National Enquirer ou outras revistas sensacionalistas — que parecem ser a verdadeira fonte de informação de Noel Tyl.

Reparem nisto:
- por volta de Setembro de 2000 a ONU deixará de existir.
- por volta de Novembro de 1997 o Papa João Paulo II terá uma “morte pacífica”
- o Papa João Paulo II será sucedido pelo “Papa Leão XIV”
- por volta de Agosto de 2000 o “Papa Leão XIV” terá uma “morte prematura”
- Kim John Il não irá liderar a Coreia do Norte
- por volta de Setembro de 2004 a Coreia do Norte e do Sul serão unificadas
- a Suécia, por agitação social, será completamente revitalizada (o que quer que isso signifique) em meados de 2000
- o Marco Alemão tornar-se-á a moeda padrão da União Europeia

Têm o suficiente? Querem mais?

Vale a pena ler se quiserem dar uma boa gargalhada de um pateta a tentar ser ‘vidente’.

(Clicar AQUI para ver texto original, na íntegra)

Palavras duras, na minha opinião, mas, no fundo, merecidas.

Não contente, Noel Tyl abraçou outra tentativa de sucesso rápido e explosivo na forma de “criador de Aspectos”. Eu vou entrar em mais pormenor nisto quando escrever sobre os Aspectos (algo que já ando a falar há algumas semanas, bem sei, mas há-de vir), no entanto, muitos devem saber que existem basicamente dois tipos de Aspectos: os Maiores, também conhecidos como Ptolemaicos, e os Menores, ou Keplerianos.

Ora, Claudius Ptolemaeus e Johannes Kepler são, de facto, dois nomes de reputação intemporal no meio astrológico. São dois homens que, pelas suas contribuições à ciência, ficaram para a história e, aparentemente, Noel Tyl quis ser o terceiro nome desse pacote quando descobriu/inventou um Aspecto de 165º e chamou-o de Quindecile. O problema? Bem, vários, mas o mais fascinante é que já havia um Aspecto com esse nome proposto por Kepler, mas que tem 24º (e não 165º, como a versão de Noel Tyl).

Quando confrontado com isto (algo que, estranhamente, um astrólogo do seu “gabarito” tinha obrigação de saber), a história começou a mudar de tom. Afinal, já não tinha sido ele a descobrir (ou inventar) o Aspecto, mas sim a ressuscitá-lo de um texto que leu de um outro astrólogo alemão do princípio do século XX. Até pode ser que, afinal, Noel Tyl tenha apenas ido buscar inspiração nesse livro, mas que tal fazer alguma pesquisa sobre o que é um Quindecile antes de inventar um ângulo completamente novo? É uma ideia, não?

Contudo, a situação não se limita a uma mera confusão de nomes e números. Noel Tyl chegou mesmo ao ponto (e talvez ainda o faça hoje em dia, não sei bem) de propôr que este Aspecto era tão marcante e importante que devia fazer parte dos Aspectos Maiores. A esta altura convém dizer que, se nem os Aspectos de Kepler foram elevados a esse estatuto, o que faz o Aspecto de Noel Tyl ser melhor?

Em resumo, Noel Tyl pode ser um apaixonado por Astrologia e, como tal, tem alguns momentos de brilhantismo (admito, sem reservas), no entanto, ele é igualmente propenso a entrar em deslumbramentos e, volta e meia, faz figuras deploráveis como as acima mencionadas. Há muito mais, e quem quiser colecionar os mais de 20 livros publicados por ele vai, com certeza, encontrar muito mais pérolas, embora a um nível mais contido (felizmente).

Até à próxima.

Sábado, 22 Novembro 2008 Publicado por Carlos | Astrologia, Astrólogos | , , , , , | 2 Comentários