Astrologia

Ciência e Educação

Cepticismo

Recentemente, uma pessoa do meu círculo social, e que tem um interesse crescente em Astrologia, relatou-me que, numa conversa com alguém do seu próprio círculo social, o tema da Astrologia veio à superfície, e essa terceira pessoa rapidamente encerrou o assunto com algo que, parafraseando, foi mais ou menos: “a Astrologia é uma questão de crença, e eu não acredito”.

Ao ouvir isto, não pude deixar de rir e, seguidamente, abanar a cabeça ao sentir um certo sentimento de “pena”, em especial por tratar-se de alguém de uma geração mais jovem que a minha, onde seria expectável encontrar jovens adultos com uma mente mais apta para lidar com a racionalidade do que os nossos antepassados.

Bem sei que há jovens de vinte e poucos anos, e até menos, que abraçam cegamente as palavras de um livro, defendem formas de entretenimento que implicam a morte ou sofrimento de outros seres vivos, e/ou acham que “liberdade” é sinónimo de “fazer o que me apetece, doa a quem doer”, entre um sem-número de outros exemplos de falta de juízo racional e inteligente.

É um quadro negro, aquele que pintei, mas opto por olhar para a coisa de um ponto de vista mais construtivo, retirando inspiração do evento em causa, e assim delinear um texto em “homenagem” a essas mentes brilhantes que debitam tais pérolas de sabedoria acerca da Astrologia.

Antes de mais, a meu ver, existem dois tipos de Cepticismo: o “Saudável” e o “Doentio”.

No Cepticismo Saudável, temos o arquétipo da mente científica. Ou seja, a tendência para questionar tudo, não tomar nada por garantido, e nunca conformar-se com uma resposta. Mesmo quando achamos que já sabemos algo, a mente científica quer sempre testar novas teorias, novas abordagens, rever o passado com novos olhos, etc. Isto é óptimo, e é recomendável a qualquer ser humano que queira desenvolver a mente, independentemente de dedicar-se profissionalmente a uma ciência ou não. É o uso da inteligência cognitiva no seu melhor.

No Cepticismo Doentio, temos o arquétipo do dogma e do fanatismo. Ou seja, a tendência para questionar tudo, não com qualquer interesse em encontrar respostas, mas sim em arranjar formas de provar como certas as respostas que desejam ser as verdadeiras. É o pôr em causa por questões de ego. Por vezes, também, o receio de não ter capacidade para lidar com uma realidade que não é conveniente (zona de conforto). O importante passa a ser convencer o mundo que aquela é a única verdade (voltamos à questão do ego), logo, dando ênfase a defeitos e argumentos potencialmente destrutivos das verdades alternativas e, convenientemente, ignorando o que não serve este propósito. Em suma, é o Cepticismo elevado/rebaixado (como preferirem) ao estatuto de Religião.

Um típico exemplo disto é a tendência a fazer citações de cientistas que fizeram esta ou aquela afirmação em detrimento da Astrologia. A pessoa em causa pode não conhecer o contexto da afirmação, ou sequer ter qualquer conhecimento sobre o trabalho desse cientista, mas a citação é feita à mesma e apresentada como “prova” para justificar as suas crenças.

Um desses cientistas, muitas vezes citado, é Carl Sagan. Sem dúvida, um grande cientista, e é bem verdade que ele questionou sempre a Astrologia, mas ele também fez o seguinte comentário no seu livro The Demon Haunted World (Science As A Candle In The Dark) – que aqui em Portugal tem o nome Um Mundo Infestado de Demónios, da editora Gradiva – onde ele descreve como se recusou a assinar um manifesto anti-Astrologia nos anos 70 porque o tom do manifesto era autoritário (leia-se “dono da verdade”) e acrescentou:

O manifesto insistia que não conseguimos pensar em nenhum mecanismo pelo qual a Astrologia poderia funcionar. Isto é certamente um ponto relevante mas por sí só não é convincente.

Nenhum mecanismo era conhecido para o “movimento” dos continentes (agora subsumido em placas tectónicas) quando foi proposto por Alfred Wegener no primeiro quarto do século XX para explicar uma série de dados confusos em geologia e paleontologia (veias de rochas e fósseis pareciam seguir continuamente do zona Este da América do Sul até ao Oeste de África; terão os dois continentes alguma vez estado ligados e o Oceano Atlântico ser novo?).

A ideia foi redondamente desprezada por todos os grande geofísicos, que estavam certos que os continentes eram fixos, não flutuavam em nada, e logo incapazes de “movimento”.

Em vez disso, a ideia chave do século XX em geofísica acabou por ser as placas tectónicas; agora entendemos que as placas continentais de facto flutuam e “movem-se” (ou melhor, são carregadas por uma espécie de corredor móvel conduzido pelo grande motor de calor do interior da Terra), e todos aqueles grandes geofísicos estavam simplesmente errados.

Notem bem a última frase. O próprio Carl Sagan, inimigo número um da Astrologia (como alguns diriam), a dar o braço a torcer admitindo que até os grandes cientistas em massa, nas suas certezas, enganam-se, e num período tão recente como o século XX – fazendo aqui uma clara demonstração de Cepticismo Saudável.

Agora pergunto: quantas vezes viram ou ouviram alguém que despreza a Astrologia comentar a citação acima? No meu caso, nunca, e ainda estou para conhecer alguém que diga algo em contrário. Porquê? Talvez porque não seja conveniente, e talvez porque acredita-se, preconceituosamente, que os astrólogos não percebem nada de ciência, logo, nunca iriam ler estes textos. A verdade é que, para a esmagadora maioria das pessoas que não levam a Astrologia a sério, o importante é ter razão (dogma) e não saber a verdade (ciência).

É verdade que Carl Sagan também pôs a “pata na poça” algumas vezes, ou não fosse ele humano, e rodeoado de pessoas que, como ele mesmo descreveu, eram bastante autoritárias. Num mundo onde a carreira está dependente da aceitação pelos pares, fazer uma afirmação polémica sem ter a força dos números e sem provas científicas (leia-se: que correspondam aos modelos presentemente aceites pela comunidade científica) seria suicídio profissional, e Carl Sagan nunca teria tido o sucesso e popularidade que teve se tivesse personalidade para ser um rebelde.

Notem, porém, que quando falava de Astrologia, ele dava particular atenção às técnicas de Astro-Entretenimento. Alguns dos videos mais populares de Carl Sagan no YouTube, hoje em dia, e que são tão usados por alguns críticos como “provas” científicas contra a Astrologia, são exactamente aqueles onde Carl Sagan, inteligentemente, põe a nú a falsidade das previsões genéricas nos jornais e revistas, mas como já expliquei noutros textos anteriores, isso nem sequer é Astrologia, e sim um travesti da Astrologia que surgiu e ganhou proeminência somente nos últimos quatro séculos (talvez aprofunde mais isto num futuro texto, quando falar da história da Astrologia).

No contexto do que estou a querer falar esta semana, o ponto a reter aqui é que uma mente científica não faz afirmações definitivas. Tudo está aberto a ser testado múltiplas vezes ao longo dos tempos, exactamente porque, à medida que a civilização humana evolui, novas formas de testar o universo que nos rodeia vão surgindo e permitem-nos entender as coisas melhor.

Porém, desde pessoas comuns, como aquela que referi no começo deste texto, até pessoas de renome no meio científico, como o autor do tal manifesto anti-Astrologia, observamos que são pessoas que não buscam por respostas. Pelo contrário, agarram as respostas que lhes convem, e depois procuram justificar essas respostas. Chama-se a isto “manipulação dos factos”, e o mundo está pejado disto, aos mais variados níveis – como, aliás, sempre esteve.

Há algumas semanas atrás, no texto sobre Horóscopos onde tentei explicar porque é que as previsões dos Signos solares não são Astrologia, falei daquelas pessoas que, por ignorância, abraçavam vigorosamente tudo o que é popularizado nos meios de comunicação social acerca da Astrologia – chamemos a este grupo de “os crentes”. Enquanto esse grupo pode argumentar que é ignorante, e não tem meios para saber mais e melhor, o mal deste segundo grupo que refiro hoje é que, arrogantemente, não assumem qualquer tipo de ignorância e, pelo contrário, defendem os seus preconceitos alegando conhecimento de outras ciências distintas (Astronomia e Psicologia sendo as mais comuns), ou justificando a sua capacidade intelectual com o currículo que têm, mais uma vez, noutras áreas separadas da Astrologia.

Eu costumo dizer que, se houve uma coisa boa que o ainda presidente dos EUA, George Walker Bush, fez pelo mundo, foi provar que ter um curso numa universidade de renome não é sinónimo de ser uma pessoa brilhante e, ironicamente, o seu poder de argumentação é, em muitas coisas, semelhante ao da maioria dos críticos da Astrologia, onde as falhas de lógica, ocultação de informação pertinente (ou impertinente, dependendo do ponto de vista), e manipulação dos factos, são alguns dos ingredientes principais do prato do dia.

Uma mente científica questiona as coisas, põe-nas em causa, faz perguntas, e não aceita nada cegamente. Claro que não, e é uma atitude positiva, que promove a investigação, o estudo, a pesquisa, e a evolução do conhecimento. Porém, quando esta atitude de duvidar das coisas serve apenas para reduzir e minimizar o desconhecido, em vez de tentar entendê-lo, então isso é puro dogma, nada mais.

Atenção que não me estou a referir a “opiniões”. Não há mal algum em ter opiniões, desde que a pessoa admita que é só mesmo isso e, consequentemente, aceite que pode estar mal informada. O grande problema, e é esse que quis abordar esta semana, está no facto de algumas pessoas não terem a capacidade para distinguir “opinião” de “verdade”.

No fundo, alguém que critica a Astrologia como um todo, sente-se convicto de que esta não é séria, e faz afirmações infundadas sobre o tema, é como um fanático religioso que está preso no seu mundo de verdades, do qual recusa-se sequer a vir à janela ver se há um mundo mais abrangente para explorar. Esses “cépticos” podem utilizar mil e uma definições e expressões para se diferenciarem de outros fanáticos religiosos, mas a verdade é que as atitudes e actos são iguais – só as crenças que defendem é que mudam.

Até à próxima.

Sábado, 25 Outubro 2008 Publicado por Carlos | Astrologia, Desmistificação | , , , , , , , , , , , , | Sem comentários ainda