Compatibilidades
É um facto que tendemos a só dar atenção àquilo que funciona mal porque, quando as coisas funcionam bem, encostamo-nos e tomamos essas coisas por garantidas. Nas relações isto é particularmente verdade, mas notem que há tipos de relação que, tipicamente, trazem mais problemas que outros.
Dos quatro tipos de relação que vou abordar aqui, a amizade é aquela onde tradicionalmente somos menos exigentes em relação aos outros. Não é tão comum ter ciúmes se o nosso amigo sai e vai ao cinema com outra pessoa, se está mais tempo com esse indivíduo do que connosco, se não nos telefonou esta semana, etc. Aliás, o mais provável é partilharmos dessa mesma ida ao cinema, fazendo o programa a três ou quatro e, dessa forma, expandimos o nosso próprio círculo social, ganhando mais um amigo ou amiga.
No fundo, há um respeito natural pelo individualismo de cada um. O tempo é finito, e é utilizado da forma que for mais conveniente a todos os intervenientes da relação e, se houver um contratempo, “oh que pena, fica para a próxima”. Amizades assim podem durar vidas inteiras porque não se baseiam nas exigências, mas sim na compreensão, receptividade, e partilha.
Quando olhamos para outros tipos de relação, onde o factor exigência é inerente ou imposto, as coisas começam a complicar-se. Por exemplo, o tipo de relação que coloco aqui em segundo lugar, é a chamada relação profissional que, às vezes, transborda para a amizade. Aliás, é muito comum fazerem-se amigos no local de trabalho, ou na escola, apesar do surgimento de um Saturno mais proeminente na questão. Aqui é preciso fazer algo, cumprir uma obrigação, a que ambos estão ligados. É a exigência inerente deste tipo de relação, mas quando os intervenientes aprendem a lidar com isso, o resto processa-se com o mesmo à-vontade que uma amizade, e a partilha é possível (e recomendada).
Em terceiro lugar, considero a relação familiar. Do ponto de vista racional, não devia em nada ser diferente da amizade, mas ainda vivemos numa sociedade que acredita piamente que ter laços de sangue, de alguma forma, cria obrigações extra para a relação – ou seja, exigências, mas neste caso auto-impostas pelos valores culturais e morais dos intervenientes.
Racionalmente, reparamos que quase todos os seres vivos seguem um padrão familiar similar, que passa por ajudar os jovens a tornarem-se adultos independentes e, por fim, lançá-los à vida. Entre seres humanos, porém, há pais que “aprisionam” os filhos, incapacitando-os para uma potencial vida adulta saudável, irmãos que intrometem-se e assumem atitudes paternalistas sem direito ou mérito, filhos que tentam compensar a falta de preparação dos pais individualizando-se demasiado rápido, e de forma caótica, etc.
Por fim, e embora a relação acima já pareça digna do último lugar, considero as relações amorosas (que, por ironia, raramente incluem amor) como aquelas que mais chatices e preocupações criam. Porquê? Porque é exactamente aqui que o ser humano atínge o cúmulo da exigência, ao ponto de, em muitos casos, pretenderem obter um papel assinado que legalmente os permita dizer “és meu” ou “és minha”. É neste mundo que vivemos, onde compramos uma casa e assinamos a escritura, compramos um carro e exigimos que esteja em nosso nome, e compramos uma esposa ou marido e… ops… esperem, não são propriamente comprados, mas tratamo-los como se fossem, o que vai dar ao mesmo.
Notem a diferença entre a descrição de uma amizade típica para aquilo que entendemos por uma relação amorosa. Na primeira temos, tradicionalmente, uma abertura total, confiança no outro, partilha, e respeito pela individualidade mútua. Na última temos, por tradição, o ciúme e a posse. Isto é para pensar e meditar.
Não me entendam mal. Não tenho nada contra a monogamia, ou o partilhar de uma vida inteira a dois debaixo do mesmo tecto, etc. No entanto, isso só faz sentido quando feito conscientemente. A realidade é que as pessoas que pretedem ter intimidade com outra tendem, na maioria dos casos, a fazê-lo pelos motivos errados. Quer seja para preencherem um vazio que sentem na sua vida, às vezes com frases aparentemente inspiradas, mas ocas, como “tu completas-me”, ou por qualquer outro tipo de dependência (física ou emocional).
Ninguém completa ninguém. Já somos completos. Somos é inexperientes em relação a nós mesmos. As relações surgem, portanto, como uma espécie de “espelho” para nos ajudar a ser cada vez mais nós próprios. Relacionar com outras pessoas é, no mínimo, uma forma de entender o mundo através de outras experiências e perspectivas. É por isso que também não é saudável ser um “lobo solitário”, visto que isso é o equivalente a parar no tempo e desperdiçar oportunidades de elevação da consciência.
De qualquer forma, não é sobre filosofia relacional que quero aprofundar hoje. Apesar de já ter escrito um bom bocado, achei que era necessário dar esta introdução como forma de dar algumas dicas sobre a origem dos problemas relacionais do tempo presente, e que motiva a procura por ajuda astrológica. Acima de tudo, foi uma introdução necessária para tornar mais compreensível a seguinte afirmação:
- Todas as relações podem funcionar, independentemente da compatibilidade astrológica
Isto pode parecer óbvio para algumas pessoas, mas é preocupante o número de pessoas que têm receio de sequer arriscar um contacto com alguém do Signo “x” ou “y”, porque acreditam que, de alguma forma, o Horóscopo de um indivíduo é que o força a ser compatível ou incompatível consigo. No fundo, isto é uma espécie de preconceito que se criou com o tal “amaldiçoado” Astro-Entretenimento que faz afirmações bárbaras do género “Se és Carneiro procura um Leão ou Sagitário, porque são fogosos como tu, mas nem penses em trocar olhares com um Touro ou Escorpião porque o primeiro aborrece-te, e o segundo sofoca-te!”.
Para quem é ingé… digo, optimista, e ainda acha que as massas são inteligentes o suficiente para não levar estas coisas a sério, dou como exemplo um anúncio pessoal que vi há algum tempo que, entre outras coisas, dizia “só respondo a quem for do Signo Aquário ou Peixes”. Aparentemente, esta senhora leu as descrições dos 12 Signos e concluiu que quer homens assim. Acho que é escusado comentar, mas deixo a frase no ar para meditarem um pouco sobre a repercussão da mesma na vida da senhora em causa.
Alguns dirão “bem, isso é só ignorância, a senhora não estuda Astrologia”. Talvez, mas se estudasse não é seguro que mudasse de atitude. Para dar mais um exemplo, há alguns anos atrás conheci uma estudante de Astrologia de longa data (mais de 10 anos) que clamava que nunca na sua vida iria relacionar-se com alguém que tivesse Marte na Casa 7. Como às vezes sou mauzinho e gosto de ver as pessoas enterrarem-se ainda mais, perguntei singelamente porquê, e a resposta foi que pessoas com esse posicionamento astrológico são violentas nas relações, batem na mulher, etc. Admito que, pelo menos a mim, deu-me vontade de apresentar-lhe a cara a um taco de baseball, ali mesmo e naquele momento, mas enfim (estou a brincar, não se preocupem).
É preciso brincar com estas coisas, senão seriam para chorar. O preconceito, ou a forma preconceituosa com que algumas pessoas referem-se à Astrologia, porém, é muito séria e preocupante. Sim, é baseada na ignorância mental (falta de estudo sobre Astrologia) mas, às vezes, provém daquilo que chamo ignorância emocional, onde o indivíduo sabe racionalmente que ser negro, ser mulher, ser homossexual, ou ser estrangeiro (só para dar alguns exemplos típicos) não é sinónimo de ser mau, ou pior que outros mas, emotivamente, reage de forma negativa a esses indivíduos à mesma. Ter estas noções implica viver de uma forma consciente e inteligente, tanto do ponto de vista mental como emocional, e praticar Astrologia deve ser feito dentro desses mesmos parâmetros.
Saber Astrologia não é só saber qual o significado dos símbolos num Horóscopo. É, sim, saber como lidar com esse significado para poder viver aquele potencial de uma forma positiva e construtiva. Pegando no exemplo acima, de Marte na Casa 7 (e ignorando o Signo em que pudesse estar, ou os Aspectos que faz, etc), a única coisa que um astrólogo consciente pode afirmar com elevado grau de certeza é que trata-se de alguém que gosta de ter actividade nas relações. Essa actividade pode ser violenta, de facto, mas também pode ser um apetite sexual voraz, pode ser gostar de praticar desporto e querer que a sua companheira ou companheiro partilhem do mesmo hobby, etc.
Isto leva-me à questão daquilo que é importante ser observado nos Horóscopos de uma relação. Em Astrologia Relacional, a primeira coisa a ver é o Horóscopo Natal dos indivíduos em questão porque é preciso ter uma noção primária do potencial relacional de cada um. Não adianta ter um Horóscopo Composto maravilhoso, ou uma Sinastria fantástica, se os Horóscopos Natais de um, ou ambos, demonstrarem que a pessoa pode ter pouca apetência para tirar proveito disso.
Só depois é que é legítimo fazer uma Sinastria, ou seja, a comparação dos dois Horóscopos Natais, em busca de ligações. Aqui devo dizer que, ao contrário do que alguns pensam, ter só Trígonos e Sextis não é sinónimo de uma boa relação. Eu ainda não abordei a questão dos Aspectos (está na lista de espera, para um futuro próximo), mas já referi antes que nenhum Aspecto é “bom” ou “mau”. No caso, uma Sinastria que é dominada por Aspectos Passivos (Trígonos e Sextis) demonstra elevado grau de harmonia, mas pouca atração. Por isso, se estas duas pessoas, eventualmente, conhecerem-se, podem falar bem e estar bem uma com a outra, mas dificilmente vão encontrar “cola emocional” para ficarem juntos muito tempo, ou partilharem de grandes projectos a dois.
Da mesma forma, uma Sinastria que é dominada por Aspectos Activos (Conjunções, Quadraturas, e Oposições) pode indicar grande atracção, mas ao mesmo tempo uma tendência a “pisar nos calos” um do outro.
Por fim, podemos fazer o Horóscopo Composto. Este é semelhante ao Horóscopo Natal de cada indivíduo, mas é criado através do cálculo dos Pontos-Médios da Sinastria. Dito de outra forma, é o mapa da relação, como se a relação fosse um único indivíduo. Como tal, só se faz este Horóscopo para pessoas que partilham de algo juntos, quer seja uma empresa como sócios, uma casa como casal, etc.
Ainda não acabou. Depois de tudo isto, ainda podemos consultar os Trânsitos, Progressões e Direções de Arco, não só para os Horóscopos Natais, mas também ao Horóscopo Composto. Desta forma, fazem-se as previsões para os momentos de sucesso, e timings de surgimento de obstáculos na relação, ou na vida dos indivíduos que, por sua vez, podem reflectir-se na relação.
Em conclusão, não há relações perfeitas, nunca houve e, até prova em contrário, nunca haverá – pelo menos neste mundo em que vivemos. Quando entramos numa relação, não deve ser como quem joga no Euro-Milhões e ver “se é desta que acerto”. Cada relação vai ter o seu lado positivo e o seu lado negativo. A Astrologia Relacional serve, essencialmente, para detectar com antecedência os pontos fortes e fracos dessas relações, para capitalizarmos os primeiros e atenuarmos os segundos. Com ou sem esta ajuda, o objectivo é aprender a vivê-las o melhor que puderemos, sem expectativas e, acima de tudo, sem preconceitos nem exigências.
Até à próxima.
Parabens por todos os seus artigos.
Li-os todos de seguida. Muito instrutivos. Não conhecia o seu blog. Só hoje ao ler o seu comentário sobre a análise que fiz no blog Cova do Urso me apercebi que este espaço existia.
Sou estudante de astrologia mas autodidacta. Leio, pesquiso e tento praticar. Faço-o há alguns anos mas acho que desde que comecei jamais irei terminar. A astrologia fascina-me e ajudaa-me a compreender melhor o mundo que me rodeia.
Saudações.
Adelaide Figueiredo
Comentário por Adelaide Figueiredo | Domingo, 19 Outubro 2008
Olá Carlos Granés. Boa noite.
Li esta sua dissertação com o entusiasmo de quem tem dos aspectos referenciados, uma noção sempre de espectativa, porque é um sentimento onde as certezas não são fiáveis e se caractaerizam por uma interpretação subjectiva de quem observa e de quem as vive e interioriza.
Eu tenho observado quem tenha ciúme de amizades e quem se porte liberalmente com as amizades ou relações circunstanciais dos seus amores.
E penso que a sociedade de organização monogâmica tem os dias contados, ou anos, porque deixou de fazer sentido, se alguma vez o fez, qundo cada vez mais todo o tipo de relações desde os comerciais aos de estado, deixaram de ser um tabu para a maioria das pessoas esclarecidas, ou que se dão ao trabalho de pensar sobre os acontecimentos.
O seu texto é de uma grande clarividência e sentido pedgógico o que só dignifica a ciência que se propôs abraçar.
As minhas saudações
Comentário por biocrónicas | Domingo, 19 Outubro 2008
Boa tarde, Carlos,
Muito agradecido pela sua visita à minha cova. Também foi bom encontrar aqui outros dois amigos que leram este seu excelente artigo.
Entre o concordar consigo e sorrir com o seu sentido de humor, passei um momento muito agradável. Achei imensa graça àquela do «Marte na Casa 7»… Sempre que procuro um vendedor para a minha editora e constato que essa pessoa tem um Marte na 7ª casa (para além de outros factores), o mais certo é haver ali energia suficiente para visitar clientes, fazer vários quilómetros, estabelecer empatias, não desistindo facilmente do «não», etc.
Estou de acordo consigo e é preciso brincar com estas coisas. Não só a ignorância é atrevida, como o fundamentalismo é inócuo.
Obviamente que um relacionamento a dois é uma coisa muito complexa.
Boa semana para si
António
Comentário por António Rosa | Segunda-feira, 20 Outubro 2008
Seu artigo foi muito esclarecedor, concordo plenamente o estudo sério da astrologia, faz com que mudemos de atitude, e a medida que nos aprofundamos abolimos muitas idéias preconcebidas.Sou autoditata em astrologia , e hoje compreendo cada vez mais a mim mesma e o mundo , todas as relações podem funcionar independente do signo, adorei esta afirmação.Esta ciência é fascinante e traz um conhecimento inesgotável. Um grande abraço.
Comentário por sandra regina | Sábado, 24 Janeiro 2009
Marte na casa 7 poderá não ter um significado unívoco…mas, como explicar que (e vou relatar um caso pessoal, mas, como ninguém me conhece…) um homem com um trânsito de Marte na casa 7 tenha, na verdade, protagonizado uma cena de violência doméstica… durante esse mesmo trânsito? Não seria coincidência demais? Já agora como “amortecer” a fome de violência deste marte na casa 7 ( e manter-se-á ao que parece até final de Abril! O que mais estará para acontecer?) ? Colocá-lo 24h /dia diante do canal playboy até que o trânsito termine?… Estranho… aproveito para informar que não sou estudante de astrologia, nem astróloga, sou apenas uma curiosa…obrigada.
Comentário por Karma | Segunda-feira, 30 Março 2009
parabens pelo artigo.tenho uma amiga que mesmo que os nossos signos fossem desarmonicos nos continuariamos em frente,porque nos acreditamos no crescimento de duas pessoas pelas diferenças e nao pelas igualdades.resumindo relaçoes perfeitas sao tao chatas.se olharmos em volta veremos que uniao de signos opostos tem dado muito certo.novamente parabens. lucio. brazil
Comentário por lucio dicetaro | Terça-feira, 30 Junho 2009