Mercúrio Retrógrado – 1
Saber o que escrever esta semana foi um pouco complicado. Não é que haja falta de assunto, mas ou eu mudo de ideias sobre o tema que quero abordar, ou falta-me o tempo para sentar e escrever o que quero. Aliás, só a escrever a frase acima já fiz dois erros que entretanto corrigi ao rever a frase.
Pois é, Mercúrio ficou Estacionário ao longo da semana, e iniciou o seu movimento Retrógrado na Quinta-feira passada. Não é que isto seja necessariamente “mau”. Aliás, no primeiro parágrafo até dei a dica sobre como lidar com estas Retrogradações: é preciso rever as coisas.
As Retrogradações, de uma forma geral, pedem que haja um “voltar para dentro”, ou um “voltar atrás” naquilo que toca. Não é só para atrasar a vida às pessoas, como alguns poderão pensar, mas sim para dar a tal “janela de oportunidade” para realmente pensarmos e, acima de tudo, interiorizarmos as coisas.
Cheguei a pensar em fazer deste texto algo sobre Retrogradações em geral, mas acho mais útil especificar o tema em Mercúrio, até porque Mercúrio Retrógrado, por natureza, exige atenção ao detalhe, e não generalizações. Haverá sempre tempo para falar das idiossincrasias dos outros Planetas, noutras ocasiões, certamente.
Da última vez que Mercúrio esteve Retrógrado, foi entre a última semana de Maio e a primeira quinzena de Junho. Nessa altura, por distração, fiz uma encomenda de alguns livros de Astrologia através da internet. Escusado será dizer que nunca sequer lhes vi a cor, pelo menos até hoje. Mercúrio estava em Gémeos nessa altura e, se formos a ver, “livros” e “correio” são, de facto, palavras associadas ao Signo de Gémeos.
Estou a dar este exemplo pessoal porque, às vezes, costuma-se dizer que quando Mercúrio está Retrógrado deve-se parar tudo, não tomar iniciativas, não assinar papéis, entre outras coisas. De uma forma geral, isso é verdade, mas depende do Signo em que ocorre a Retrogradação, e do local no nosso Mapa Natal em que essa Retrogradação está a acontecer, assim como os Aspectos que faz. Ou seja, nem sempre é má ideia começar algo, ou avançar com algo, neste período, pois depende das circunstâncias individuais.
Neste momento, porém, Mercúrio está em Balança. Só com isto, podemos dizer o quê? Talvez que seja preciso pensar duas vezes antes de pedir alguém em casamento, ou adiar aquele projecto em parceria até meados de Outubro (quando Mercúrio retoma o seu movimento Directo). Implicará também uma maior preocupação com a diplomacia, e na forma como se deve lidar com alguém específico, ou com o público em geral.
Notem que aqui já estou a expandir o alcance dos exemplos, desde temas mais pessoais, como o caso do casamento, até temas de impacto global como a diplomacia, tão essencial na política mundial. Em ambos os casos, não é correcto olhar para a Retrogradação de Mercúrio (ou qualquer outro Planeta, diga-se de passagem) como um “mau” período, mas sim um período de reflexão e aprofundamento.
Por exemplo, as astrólogas Joanne Wickenburg e Virginia Ewbank, no seu livro The Spiral of Life, relembram-nos que todos os Planetas regem dois Signos, e que o segundo Signo de regência ganha proeminência na fase Retrógrada. No caso de Mercúrio, isto implica uma postura naturalmente mais virginiana quando se encontra nesta fase, o que explica a viragem mental do “típico” Mercúrio para um modo mais embrenhado no mundo dos detalhes, da crítica, da introspecção, e da revisão de temas. Em suma, é assim que se lida com o período de Mercúrio Retrógrado, “abraçando” as situações com a postura mais virginiana que pudermos (o que será mais fácil para uns do que para outros, dependendo do Mapa Natal, como é óbvio).
Note-se que, a nível menos pessoal (embora também afecte a este nível, claro), a Retrogradação de Mercúrio também tem um efeito de longo prazo, através das Trindades Elementais. Provavelmente repararam que tanto a última Retrogradação de Mercúrio, assim como a actual, ambas ocorreram em Signos de Ar. Este fenómeno é constante, e são bastantes os astrólogos que estudam o efeito das Retrogradações Elementais que ocorrem, e o que trazem ao mundo em geral, e ao individuo em particular.
Neste caso, estamos a atravessar uma Retrogradação de Ar, que começou em Outubro de 2007 (transição de Água para Ar), e vai terminar em Janeiro de 2009 (transição de Ar para Terra).
A nível pessoal, observem no vosso Mapa Natal, quais as Casas que abrem com os Signos deste elemento, e procurem detectar como essas áreas foram “mexidas” ao longo deste período. Uma atitude virginiana, com algum poder de análise e auto-crítica, é essencial.
A nível mundial, podemos fazer também a mesma experiência, de preferência se tivermos acesso aos Mapas Natais de países mas, mesmo sem eles, só o facto de sabermos que Mercúrio esteve (e ainda está) numa fase de Retrogradação do Ar, já nos propõe uma forma interessante de observar a política do mundo – como ela tem sido, e como vai continuar a ser.
A próxima Trindade de Retrogradações de Mercúrio ocorrerá ao longo de 2009, todas elas de transição de Ar para Terra. Uma preparação para a passagem das palavras aos actos? É bem possível, afinal, só aqui em Portugal vamos ter um ano com três eleições, mas olhemos primeiro para nós e depois para o mundo – é aí que nos dá trabalho.
Até à próxima.
Destino vs Livre-Arbítrio
Algo que assusta algumas pessoas neste mundo é a ideia de terem pouco, ou nenhum, controlo sobre as suas vidas, e de que não passam de marionetas nas mãos de alguma entidade invisivel, quer ela seja Deus, a mãe-natureza, o destino, ou qualquer outro nome que se queira dar. Para essas pessoas, falar de Astrologia, formas de Divinação, ou previsões, tende a ser um assunto delicado e, muitas vezes, desconfortável.
Se quiséssemos abordar a questão de um ponto de vista psicológico, poderíamos levar este tema em muitas direções, incluindo se esse desejo de controlo não será, por vezes, sinónimo de insegurança, ou outro fenómeno mas, visto que o assunto é complexo, as respostas são polémicas, e nada lineares, prefiro ignorar tudo isso e restringir-me ao ponto de vista puramente astrológico da questão:
- Para um astrólogo, existe Destino ou Livre-Arbítrio?
A resposta curta é “ambos”, mas é essencial que se aprofunde um pouco a resposta, na sua versão longa.
Tal como referi há uma semana atrás, o Mapa Astrológico não determina quem somos, mas sim o nosso potencial (por outras palavras, quem podemos ser, tanto no melhor como no pior). Dito isto, é claro que aquilo que somos acabará sempre por recair dentro dos limites desse potencial. Este potencial, por sua vez, é também condicionado (ou talvez seja preferível dizer “influenciado”) por argumentos culturais, familiares, genéticos, sociais, etc.
Vamos ver um exemplo: se um bebé nasceu hoje, digamos, por volta da 1 da manhã, e na zona centro de Portugal, do ponto de vista técnico podemos dizer que é um virginiano, com Ascendente em Caranguejo, e que o regente do Horoscopo está Exaltado na Casa 11, em Trígono ao Sol, e por aí fora. Porém, na prática, o que é que isto nos diz da pessoa? Que é uma pessoa emocionalmente frágil? Com certeza. Com aquela Lua em Quadratura a Neptuno, e três Planetas Pessoais em Balança, todos em Trígono a Neptuno, isto torna-se óbvio. Esta Lua na Casa 11, juntamente com Júpiter na Casa 7, Vénus na Casa 5, e uma Casa 4 muito preenchida também indicam, sem margem para dúvida, que todo o tipo de relacionamento pessoal será de extrema importância para esta pessoa e um dos pontos centrais da sua existência. No entanto, o que está destinado a esta pessoa? Isso já depende de factores que estão para além do Mapa.
A pessoa acima pode vir a ser um crítico cinematográfico, que ficará conhecido por encontrar sempre algum defeito no trabalho dos outros ou, em alternativa, conhecido por escrever artigos longos e detalhados que abordam todas as áreas de produção de um filme, com enorme minúcia e paixão. No entanto, se estivermos a falar de alguém que tenha nascido numa familia de poucos recursos, pode vir a ser uma dona de casa que lamenta nunca ter tirado um curso, porque passou a vida a cuidar da familia, primeiro dos pais, depois dos irmãos, e mais tarde dos filhos. Para não confundir demasiado as coisas, vamos focar apenas nestes dois exemplos.
Se o primeiro (o crítico) for a uma consulta de aconselhamento astrológico, daqui a 40 anos, é bem provável que aquilo que o incentivou a procurar ajuda esteja relacionado com o seu casamento, porque Saturno terá entrado na sua Casa 7, e Plutão já estará a fazer um Sextil Aplicativo ao Descendente. o que possivelmente irá implicar uma mudança de (ou na) residência, pois Urano estará a transitar a sua Casa 3, e a aproximar-se da 4.
No entanto, se a pessoa a procurar uma consulta de Astrologia, dentro de 40 anos, for a segunda (a dona de casa), o motivo pode ser a senhora ter-se fartado de aturar a sua vida aparentemente medíocre e querer ela largar o marido, e aventurar-se nalgum projecto (Urano na Casa 3, já em Oposição ao Urano Natal, Plutão na Casa 9, Neptuno em Conjunção à Lua, etc).
Portanto, se permitem-me a analogia, o Mapa Astrológico com que nascemos é como um mapa das estradas. O mapa das estradas não diz qual é o nosso “destino”, mas mostra-nos imensos destinos possíveis, e quais os melhores caminhos para lá chegar, dependendo no nosso ponto de partida. Da mesma forma, um Mapa Astrológico não determina como a nossa vida vai decorrer, mas indica várias possibilidades, e orienta-nos sobre os melhores caminhos para chegar lá, dependendo do nosso potencial à nascença.
Antes de qualquer viagem por essas estradas do mundo, há que considerar o estado físico do veículo (em analogia à genética natural do corpo humano, e os abusos que lhe fazemos com o passar do tempo), se há dinheiro para combustivel, estadia, e alimentação (os recursos com que nascemos ou conquistámos no passado), qual a nossa bagagem (no caso da Astrologia, falamos não só de bagagem física, mas também emocional, o que inclui as pessoas que arrastamos connosco, e aquelas que deixamos para trás), e a distância em espaço e tempo (que, em Astrologia, corresponde ao esforço e tempo necessários para atíngir o objectivo pretendido).
Depois, há que considerar o timing da viagem. Nas estradas, o trânsito, as obras, os acidentes, as condições climatéricas, ou outros eventos, tendem a atrasar, alterar planos ou, nos piores casos, impôr a desistência da viagem. À sua maneira, os Trânsitos astrológicos, indicam também obstáculos, e ajudas, com a vantagem de permitir prever esses timings antes deles ocorrerem.
Em resumo, sim, há Destino, não apenas um, mas vários Destinos possíveis. Qual deles é que vamos viver, porém, depende única e exclusivamente de nós, e isso é o Livre-Arbítrio.
Agora, há uma pergunta relativa a este tema, que é também muitas vezes feita, e parece-me pertinente inclui-la:
- Podemos mudar o Destino duma criança, manipulando o dia e hora do seu nascimento?
Hoje em dia já se fala de escolher o sexo e as características das crianças através de manipulação genética, por isso, porque não encomendar também o Destino da criança por catálogo? Felizmente, ou infelizmente, não é assim tão simples.
Como expliquei na primeira parte deste texto, o nosso Destino é relativo. Voltando à analogia que fiz anteriormente, pensem que estamos todos na “estrada da vida”, podemos virar onde quisermos, e para onde quisermos, mas sempre dentro dos limites do troço da estrada em que nos encontramos.
Dando um exemplo prático, se um bebé nascer numa família pobre, não será por nascer com Júpiter na Casa 2 que vai estar destinado a ser rico. Terá é mais potencial para sustentar-se financeiramente do que outros membros da família, mas aproveitar esse potencial para alcançar um estatuto económico mais elevado dependerá sempre de como ele irá usar esse potencial. Aliás, no seu pior, Júpiter na Casa 2 dá tendência a esbanjar dinheiro, por isso, este até pode vir a ser o membro mais pobre da familia, simplesmente porque usou o seu potencial da pior maneira!
Por outras palavras, é legítimo pensar que podemos alterar o potencial da criança, mas não o seu Destino, visto que este estará dependente das escolhas do indivíduo à medida que cresce.
É por isso que um astrólogo em consulta irá sempre questionar o cliente acerca de como este tem vivido o seu potencial, e quais os seus objectivos, porque cabe ao astrólogo respeitar as pretensões do cliente, e não forçar uma forma de viver alternativa. Com essa informação, pode então o astrólogo orientar o indivíduo no caminho que este pretende, e com os melhores timings possíveis.
- O que dizer daqueles astrólogos que afirmam que temos uma “missão”, ou uma dívida kármica para pagar, etc?
Isso já vai para além da Astrologia, pura e dura. Para entender isto, permitam-me fazer mais uma analogia.
Imaginem que, numa consulta médica, foi-lhes diagnosticado um problema que exige intervenção cirúrgica. O caso é grave, podem haver complicações após a operação, mas a realidade é que tudo corre bem e, uma vez recuperados, procuram pelo cirurgião responsável para lhe agradecer pessoalmente o excelente trabalho. Nessa altura, o cirurgião vira-se para vocês e diz algo do género: “não fui eu que o salvei, mas sim Deus, que guiou as minhas mãos durante a operação”.
Isto muda alguma coisa em relação ao que é, ou deixa de ser, Medicina? Claro que não. Simplesmente, o indivíduo que pratica esta ciência, deu-lhe uma cobertura pessoal e, neste caso, religiosa. Ainda há algum tempo atrás, quando tivémos o referendo sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez até ás 10 semanas, assistimos a inúmeros exemplos de pessoas que, sendo médicos, ou trabalhando em indústrias paralelas, opinaram tanto para um lado como para o outro.
Em Astrologia, eu costumo dizer o seguinte (e perdoem-me mais uma analogia, mas hoje deu-me para isto): se a Astrologia fosse um bolo, a massa seria toda a parte técnica e de cálculo, o recheio é a qualidade da interpretação (ás vezes não há recheio nenhum), e a cobertura é a explicação pessoal, moral, e/ou ética que lhe aplicamos – ou seja, dá-lhe um sabor extra.
Não quero, nem por um momento, que fiquem com a ideia que estou a recusar a existência de karma, vidas passadas, ou uma divindade que nos criou a todos, numa magnífica sincronia cósmica. Nada disso. O que digo é que devemos saber separar as águas, e dar o nome certo ás coisas certas. Da mesma forma que muita gente ficaria incomodada com a ideia de fazer uma cirurgia se soubessem que muitos, ou todos, os cirurgiões põem a vida dos pacientes “nas mãos de Deus”, tenho a certeza que há um número igualmente grande de pessoas que não iriam a uma consulta astrológica se soubessem que iam ser “doutrinados” numa forma de viver a vida, que implique “missões” para as quais não se sentem inclinados.
Mais do que isso, como a astróloga Donna Cunningham defende, no seu livro The Consulting Astrologer’s Guidebook, é horrivel quando alguns astrólogos dizem aos clientes que a razão pela qual temos a vida que temos é porque fizemos certas coisas no passado e agora temos dívidas em relação a isso. Isto não ajuda ninguém. Já não basta a situação presente que levou o indivíduo a procurar ajuda a um astrólogo, quanto mais esfregar-lhe na cara que é tudo merecido por causa de um acto ou atitude que nem se lembra de alguma vez ter feito ou tido.
Por isso, a minha opinião sobre o assunto é a seguinte: cada um tem o grau de consciência que pode ter. Não importa se é uma “alma jovem” que tem muito para aprender nesta encarnação, ou se é uma “alma antiga” que foi braço direito de Hitler, e agora sofre mil e uma doenças por isso. O objectivo do astrólogo profissional é orientar a pessoa, como ela é no presente, de forma a tirar o máximo proveito do potencial com que nasceu. Tudo o resto pode dar um “sabor” extra ás consultas, mas é meramente teórico, e eu arriscaria mesmo a dizer “dispensável”.
Até à próxima.
Previsão vs Adivinhação
Uma das coisas que vêm à cabeça das pessoas, quando ouvem falar de Astrologia, é a capacidade desta prever o futuro. Infelizmente, parece haver alguma confusão entre o significado do verbo “prever” e o verbo “adivinhar”, e isto leva a algumas expectativas irreais, afirmações falaciosas, e desilusões.
Quantos de nós já ouvimos pessoas a perguntar “então, quais vão ser os números do Euro-Milhões para esta semana”? Algumas vezes esta pergunta é feita na brincadeira, como forma de picar os “astrólogos” que dizem saber o futuro, mas outras vezes a pergunta é feita a sério, o que é igualmente preocupante.
Não ajuda nada que os meios de comunicação social incluam a Astrologia na lista de formas de Divinação, mesmo ao lado do Tarot, Runas, Búzios, Folhas de Chá, Borras de Café, ou Entranhas de Galinha (só para dar alguns exemplos). Não estou em posição para afirmar se algumas destas técnicas têm mérito ou não, mas estou em posição para dizer que a Astrologia não faz parte dessa lista e, consequentemente, não se deve esperar o mesmo dela.
A Divinação, ou acto de adivinhar, pressupõe a aquisição de informação concreta acerca do passado, presente, ou futuro. Quando alguém pergunta se a esposa foi sempre fiel, se a Madeleine McCann está viva, ou se vai conseguir aquele emprego para o qual se candidatou, estamos a falar de questões concretas que só vão obter resposta (se possível) através de um bom detective privado ou formas de Divinação.
Previsão, ou o acto de prever, porém, pressupõe a utilização de informação passada e presente para, através de cálculos estatísticos, concluir quais são as probabilidades futuras. Todos nós vemos isso, quase diariamente, quando os comentadores de futebol prevêem que o Sporting Clube de Portugal vai ganhar contra o Futebol Clube do Porto, ou quando o meteorologista prevê que amanhã o céu vai estar nublado, com “possibilidades” de aguaceiros.
Um Mapa Astrológico não mostra quem somos, mas sim quem podemos ser, tanto no nosso melhor como no nosso pior. O objectivo de uma consulta astrológica não é fazer um espectáculo de adivinhação sobre a personalidade, vida, ou futuro da pessoa que se senta à nossa frente. A consulta profissional de Astrologia implica um diálogo aberto entre astrólogo e cliente, exactamente para saber como a pessoa está a viver esse potencial, e permitir ao astrólogo uma melhor orientação do indivíduo no sentido mais construtivo possível.
No caso, as previsões feitas por um astrólogo são baseadas nalguns elementos, dos quais destaco:
- Potencial apresentado pelo Mapa Astrológico Natal.
- Consciência deste potencial (tanto por parte do astrólogo, como do cliente).
- Janelas de oportunidade (Trânsitos, Progressões, Direções, etc).
Dito isto, levanta-se de imediato uma questão:
- Então e a Astrologia Horária?
Antes de mais, é preciso entender que a Astrologia Horária não é uma técnica de interpretação ou cálculo astrológico, mas sim uma variante de Astrologia com as suas próprias regras de funcionamento. Outros exemplos incluem a Astrologia Esotérica, que difere da Astrologia Tradicional (tanto a clássica como a moderna) em vários pontos, e a AstroCartografia, entre outras.
Posto de forma simples, a Astrologia Horária é uma variante da Astrologia que funciona como Divinação pura. Na verdade, nem sequer usa o Mapa Astrológico Natal do cliente (a base de todo o trabalho astrológico tradicional), nem aplica Trânsitos, Progressões, Sinastrias, entre muitas outras técnicas astrológicas conhecidas.
O funcionamento é muito simples. O cliente faz uma pergunta, e o astrólogo faz um Mapa do momento em que foi feita a pergunta. Com base no Mapa desse momento, o astrólogo apresenta uma resposta concreta, que pode ser tão simples como de “sim ou não”, ou um pouco mais complexa, apresentando dados como a direção geográfica de um evento, ou o espaço de tempo até o evento ocorrer.
Esta é, possivelmente, a principal fonte da crença que a Astrologia dita o nosso futuro, visto que adivinhar o futuro implica que este já esteja escrito e nada podemos fazer para alterá-lo. Isto levar-me-ia a uma outra discussão, respeitante à existência de destino ou livre-arbítrio aos olhos dos astrólogos, mas prefiro aprofundar isso num texto futuro (e não, isto não é uma adivinhação, só uma previsão mesmo).
Aqui, acho mais pertinente explorar um pouco a Astrologia Horária, para que possamos entender se há, de facto, adivinhação, previsão, ou apenas um engodo. Apesar de ser uma variante tão interessante, e potencialmente útil, a verdade é que tem sido ignorada e quase perdeu-se à medida que a Astrologia seguiu outros caminhos.
Para começar, vamos ver uma citação do astrólogo brasileiro Fernando Fernandes:
A Astrologia Horária foi muito popular na Idade Média, e não é difícil descobrir o motivo. Numa época em que, com exceção da alta nobreza, quase ninguém sabia exatamente quando havia nascido, desenvolver uma técnica que dispensasse a certeza sobre os dados de nascimento era quase uma necessidade.
[...]
A forma como uma questão é colocada é de vital importância para a interpretação. Perguntas vagas ou mal formuladas tendem a gerar respostas confusas. Aqui, objetividade é essencial. É preciso que se possa definir com clareza quem está perguntando, qual seu objetivo e quais as circunstâncias que cercam a questão.
Por outras palavras, se a resposta do astrólogo não corresponder à verdade, é possível que hajam diversas razões para isso, desde a pergunta ter sido demasiado vaga, não permitindo que o astrólogo perceba o que se pretende, ou demasiado específica, o que pode induzir o astrólogo em erro.
Para além disso, a (pouca) Astrologia Horária praticada ainda hoje em dia está limitada aos sete Planetas clássicos, ignorando por completo a descoberta de Urano, Neptuno, Plutão, e todos os asteróides que, desde então, têm vindo a ser descobertos, estudados, e integrados na prática astrológica moderna.
Como se não bastasse, alguém que faça mais do que uma pergunta na mesma altura, vai obter um Mapa quase igual, mesmo que as perguntas sejam completamente distintas.
Claro que nada disto serve de prova definitiva de que a Astrologia Horária não funciona, mas não há dúvida que é, no mínimo, uma ferramenta ultrapassada. Felizmente, alguns astrólogos (nomeadamente, o autor da citação acima) fazem esforços no sentido de actualizar a Astrologia Horária, integrando elementos da Astrologia Tradicional moderna, numa tentativa de actualizá-la.
Até à data, os resultados não têm sido brilhantes, e o rácio de adivinhações correctas vs falhadas parece manter-se intocável, até porque contam-se pelos dedos os astrólogos conhecidos por pesquisarem seriamente esta área, mas vale o esforço desses poucos que o fazem, nem que seja para provar, um dia, que a vertente Horária não tem lugar numa Astrologia séria. A confirmar-se, será então remetida para o Astro-Entretenimento, tal como os Horóscopos de jornal.
Até à próxima.
Horóscopos
Em linha com os objectivos que tracei na primeira entrada que escrevi neste blog, mas também em linha com a minha intenção de fazer deste blog mais acessível às pessoas que não são estudantes de Astrologia, aqui está uma entrada dedicada àqueles que pouco, ou nada, sabem sobre Astrologia (incluindo aqueles que julgam que sabem, embora só tenham como base o que vêem nos meios de comunicação social, e pouco mais). Resolvi falar disto agora porque, embora este blog só exista há pouco mais de um mês, já se observam alguns padrões estatísticos interessantes.
Por exemplo, da lista de palavras (ou conjuntos de palavras) usadas nos Motores de Procura para encontrar páginas de Astrologia (onde este blog surge como opção), 24% têm sido para encontrar previsões para um determinado Signo e/ou data, e 4% para encontrar compatibilidades entre dois Signos. Sinceramente, esperava pior, especialmente na parte das compatibilidades, mas em relação à procura por horóscopos e previsões para os 12 Signos, ainda são números demasiado elevados para o meu gosto.
Antes de mais:
- O que é um horóscopo?
A palavra é de origem grega, e significa “observação do tempo” (no sentido cronológico do termo) ou traduções similares, como por exemplo “indicador das horas“. Tradicionalmente, é a palavra que define um Mapa Astrológico. Em suma, um “Mapa Astrológico” ou um “Horóscopo” são a mesma coisa.
No entanto, com o passar do tempo, e devido às muitas simplificações abusivas que têm sido feitas sob o nome da Astrologia, a expressão “horóscopo” passou a ser usada para representar as previsões que vemos nos meios de comunicação social (jornais, revistas, internet, etc). Daí as pessoas dizerem frases do tipo: “o meu horóscopo para esta semana diz…” seguido de uma afirmação, ou previsão, qualquer.
Por outras palavras, não é a palavra “horóscopo” que está errada, mas sim a utilização comum que se faz dela. Entre astrólogos profissionais, um Horóscopo é o Mapa, e até aqui tudo bem, mas para a maioria da população, “horóscopo” é a previsão do dia, da semana, do mês, ou qualquer outra periodicidade que se lembrem.
O problema até nem seria grave se fosse só uma questão de semântica. O problema é que aquilo a que as massas chamam de “horóscopo” nem sequer é Astrologia.
Pensem um pouco, acham mesmo que a população do mundo está dividida em 12 tipos de personalidade? Acham que cerca de 500 milhões de pessoas neste planeta têm uma personalidade semelhante à vossa? Acham que essas pessoas todas vão ter o mesmo tipo de dia (ou semana, ou mês, ou o que for)?
Basta usar o cérebro, um dos nossos bens mais preciosos, e pensar um pouco. Nem é preciso ser um génio para concluir que os horóscopos periódicos, e descrições de personalidade dos 12 Signos, não podem ser levados a sério. No entanto, ainda são imensas as pessoas que não resistem a consultar o seu horóscopo sempre que possivel.
É claro que, há quem consulte estas coisas apenas por divertimento. Nesse caso, tudo bem. Aliás, é por isso que alguns astrólogos chamam a isso de “Astro-Entretenimento”. Não há mal em existir Astro-Entretenimento, só não lhe chamem Astrologia, por favor. Da mesma forma que definir a personalidade de alguém através de um questionário na internet não é Psicologia, mas sim Psico-Entretenimento.
Apesar do óbvio, ainda há quem questione:
- Então porque é que os meus horóscopos batem quase sempre certo? Não é sinal que têm algum valor?
Não. A razão pela qual algumas pessoas caiem nesta ilusão é porque as previsões e afirmações feitas pelos horóscopos periódicos são propositadamente genéricas, o que as torna “correctas” para quase todos os que as lêem ou ouvem. Por exemplo, eu não faço ideia de quem está a ler este texto neste momento, mas posso dizer que “amanhã você tem que ter cuidado para não cair em depressão com algum comentário que vai ouvir” e, muito provavelmente, estarei certo porque as probabilidades de ouvir um comentário deprimente, nem que seja no noticiário enquanto almoça, são incrivelmente altas, e se você não ficar deprimido, então vou estar certo à mesma porque a afirmação que fiz foi só no sentido de você ter cuidado com isso, o que levará a pessoa a pensar que foi o meu conselho que ajudou a evitar o problema.
Os horóscopos periódicos são incrivelmente fáceis de pôr a teste e, por algum motivo, são o alvo preferencial daqueles que odeiam a Astrologia, e querem erradicá-la da face da Terra a qualquer custo. Por isso mesmo, já foram feitas inúmeras experiências e testes onde o resultado foi, de longe, conclusivo: os horóscopos periódicos não são Astrologia, e não têm qualquer valor prático.
Infelizmente, para muitos dos indivíduos que atacam a Astrologia, a conclusão é que toda a Astrologia é assim. Este texto não é para explorar os níveis de ignorância desse grupo de personalidades, por isso, não me vou alongar por aí, mas estou a fazer esta referência para que tenham noção da gravidade que é alimentar a existência destas imitações baratas, e como são elas as principais motivadoras da desconfiança que ainda existe em relação à ciência astrológica.
No entanto, eu sei que ainda há alguns teimosos, e a esses eu faço a seguinte pergunta:
- Sabiam que a grande maioria dos horóscopos que aparecem nas revistas, jornais, sites de internet, rádio, e televisão… não são sequer feitos por astrólogos?
É verdade, e não é só em Portugal, é em todo o mundo – aliás, a prática é particularmente comum e conhecida nos EUA, e espalhou-se como um virus. Afinal, é mais fácil, e mais barato, pedir a um dos empregados da redacção para fazer 12 parágrafos com conselhos e previsões, do que contratar um astrólogo só para isso.
Num caso que me foi relatado, a pessoa que faz os horóscopos é a empregada de limpeza do jornal. A técnica dela é chegar de manhã à editora, perguntar a 12 pessoas como se estão a sentir e, de acordo com as respostas, será essa a previsão do dia para cada Signo. O resto do dia era só a limpar, presume-se.
- Então e aqueles astrólogos populares que fazem eles mesmos horóscopos e previsões?
Voltamos à velha questão de qualquer um poder auto-intitular-se de “astrólogo”. Não é preciso curso, não é preciso licença, não é preciso nada, a não ser dizer “sou astrólogo”.
Não vou dizer nomes, por vários motivos mas, por existirem tantos destes supostos “astrólogos”, escrevi em tempos aquilo a que chamei de “Regras de Ouro” na busca por um profissional de Astrologia. É possível que estas “regras” precisem de uma actualização na forma como estão escritas, e que aumentem em número mas, para já, partilho isto com todos os que querem sair daqui mais instruídos sobre o assunto, para evitar perderem o vosso tempo (e dinheiro, em muitos casos) com falsos “astrólogos” e incompetentes:
1 – Nunca confiar num (pseudo-)astrólogo que faz horóscopos periódicos. Isto inclui previsões diárias/mensais em jornais/revistas, livros com previsões anuais, etc. Um astrólogo sério não alimenta a ilusão dos horóscopos periódicos, pelo contrário, denuncia-os.
2 – Nunca confiar num (pseudo-)astrólogo que dá consultas “impessoais” (linhas telefonicas/SMS de valor acrescentado, envio de interpretacões por correio/e-mail, etc). Um astrólogo sério precisa de falar em tempo real com o individuo para saber como ele está a lidar com as influências astrológicas natais, e as do momento, podendo assim orientar a pessoa no seu caso específico – ninguém é apenas uma data, hora, e local de nascimento.
3 – Cautela com aqueles que apresentam-se com nomes “artísticos”, ou que identificam-se com “nicknames” (mais comum na internet, mas nao só). Se alguém tem algo a esconder, em muitos casos, é porque não é digno de confiança.
Alguém em tempos comentou que esta pequena lista é suficiente para eliminar mais de 90% dos astrólogos que conhecem. Porque será? Pensem nisso.
Até à próxima.