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Tropical vs Sideral

A propósito da mensagem anterior, parece-me apropriado abordar já a questão das diferenças consideráveis entre o Zodíaco Tropical e Zodíaco Sideral.

De uma forma geral, ambos os Zodíacos são iguais, no sentido que ambos dividem o céu em 12 secções, cada uma com 30º de extensão, e com os mesmos nomes, sendo Carneiro o primeiro Signo, e Peixes o último. Até aqui, tudo bem. A principal diferença é na localização do grau 0 de Carneiro, ou seja, onde começa e acaba o Zodíaco.

No Zodíaco Tropical (que é mais utilizado no mundo ocidental, e em especial no hemisfério norte do planeta), os Signos estão associados ao ciclo natural da Terra – com os Signos Cardinais a marcarem o começo dos equinócios e solstícios (Carneiro marca o começo da Primavera, Caranguejo o começo do Verão, Balança o começo do Outono, e Capricórnio o começo do Inverno).

No Zodíaco Sideral (que é mais utilizado no mundo oriental, e seguido com grande interesse no hemisfério sul do planeta), os Signos estão associados à posição astronómica das estrelas.

Dito desta forma, a primeira impressão é que o Sideral será “o correcto”, não só porque está mais de acordo com as definições astronómicas das estrelas, mas também porque é a única alternativa para aqueles que nasceram no hemisfério sul do planeta, onde as estações estão invertidas – o que faz com que o Zodíaco Tropical tenha os seus significados igualmente invertidos.

Quando aprofundamos mais o tema, porém, começamos a ver que o Zodíaco Sideral não é tão astronomicamente correcto como pode dar a entender porque, afinal, também divide o céu em 12 segmentos de extensão igual – e as constelações variam imenso de extensão, como pode ser visto na imagem seguinte:

Zodiacos

(Clicar na imagem para aumentar)

Podemos então concluir que nenhum dos Zodíacos astrológicos corresponde ás constelações, como definidas astronomicamente (embora tenham havido tentativas de fazer um sistema astrológico que corresponda “ao milimetro” com as constelações, mas essa é uma questão redundante para este texto, visto que herda os mesmos defeitos e virtudes do sideralismo tradicional).

Outro problema com o Zodíaco Sideral é que não há consenso sobre onde alinhá-lo exactamente. Uma das estrelas de referência mais populares é Spica, mas mesmo este ponto de referência é discutido, variando entre os últimos graus da constelação de Virgem e os primeiros graus de Balança. Só para dar um exemplo da gravidade desta situação, neste preciso momento, há imensos debates entre os sideralistas sobre se Plutão está no fim de Escorpião ou princípio de Sagitário.

Existem imensos livros, revistas, e até páginas na internet, que exploram a fundo os prós e contras dos dois Zodíacos, e que testes foram (ou não) feitos, para determinar a sua validade, por isso, não vou “reinventar a roda”, citando longos textos, ou dissecando os argumentos levantados em várias fontes a nível da sua lógica, credibilidade, e isenção. Ao fim do dia, a pergunta que interessa é “funciona?”

É aqui que o Zodíaco Sideral desfaz-se como um castelo de cartas. É verdade que as pessoas com planetas dispersos no Mapa podem sentir que ambos os Zodíacos correspondem a sí, basta puxar um bocadinho pela imaginação e distorcer algumas definições dos planetas nos signos em causa, mas é quando fazemos o teste com pessoas que têm Mapas pouco dispersos que as diferenças são nítidas.

Só para dar um exemplo, uma pessoa que conheço bem, e encaixa neste perfil, tem no Zodíaco Tropical: Sol e Mercúrio em Peixes, Vénus em Capricórnio, e Marte em Touro (só para referir planetas pessoais, porque também poderia referir que Júpiter e Neptuno – dispositores do Sol e Mercúrio – estão em Peixes e Capricórnio, respectivamente, e que o Ascendente está em Caranguejo). No Zodíaco Sideral, isto é o que acontece, com os mesmos dados de nascimento: Sol e Mercúrio em Aquário, Vénus em Sagitário, e Marte em Carneiro (e, caso interesse, Neptuno também cai para Sagitário, e o Ascendente para Gémeos). A diferença é brutal, e seria claramente visível, se fosse verdade.

O que não significa que alguns “astrólogos” sideralistas não tentem dar a volta à questão, mesmo que tenham que recorrer à desonestidade para isso.

Por exemplo, Kenneth Bowser é considerado como uma das maiores referências da Astrologia Sideral no mundo ocidental moderno, e apresenta o seu currículo como alguém que tem um bacharelato em História, e que tem estudado tanto Astrologia como História há mais de 30 anos, tendo começado como tropicalista mas passando a sideralista ao fim de dois anos, e tendo escrito inúmeros artigos para revistas da especialidade como “The Mountain Astrologer“, entre outras. Este senhor foi um dos astrólogos abordado em 1997, pela revista “Traditional Astrologer“, para falar do Zodíaco Sideral (a sua especialidade, afinal de contas), e eis um excerto do que ele diz no artigo:

Um bom exemplo é Escorpião, o signo que tem mais atenção porque é considerado o mais sexual. Do ponto de vista de um sideralista, Escorpião não é um amante, doce, atraente, o artista complexo e torturado, ou inclinado a esforçar-se pela resolução de um problema; em vez disso, Escorpião impõe soluções e não atura resistência. Não negoceia; é agressivo, insistente, penetrante e intenso, gosta de lutar e é muitas vezes sonoro, rude, vulgar e completamente bruto, não considerando outras influências. Escorpião não é como Balança, contudo 5 em cada 6 Escorpioninos tropicais são Librianos siderais na era actual.

Como os Librianos são genuinamente simpáticos e atraentes, não considerando outras influências, os tropicalistas astutos que reparam no que as características das pessoas na sua experiência realmente são, e que desviam-se da sabedoria antiga, trazem à atenção explicações profundamente esotéricas acerca de como o profundo significado oculto de Escorpião (escolham um) está de facto em sintonia com as suas observações contemporâneas. É assim que Virgem tropical torna-se forte e controlador, Carneiro gentil e sensivel, ou Capricórnio formal e ambicioso, etc. Eles são Leão, Peixes e Sagitário mal rotulados, cujo corrompimento eventualmente produz uma amálgama sem sentido para grande detrimento da Arte.

Sinceramente, gostava de saber onde é que este senhor leu ou ouviu alguém dizer que Carneiro é gentil e sensível, ou Virgem forte e controlador, mas sejamos justos… ele admite no currículo que só foi um “astrólogo” tropicalista por dois anos, portanto, podemos perdoar alguma ignorância. O mesmo já não se pode dizer se a ignorância demonstrada for, na verdade, uma tentativa propositada de enganar as pessoas.

No entanto, como costumo dizer, se algo cria polémica, é porque os dois lados têm razão. A mim parece-me claro que o Zodíaco Tropical é o “correcto” quando se fala da Astrologia no sentido social e humano, pois a sua precisão de análise psicológica é, de longe, superior e há muito comprovada.

Por contraste, o Zodíaco Sideral oarece que ainda está à procura de uma identidade. Já tentou substituir o Zodíaco Tropical, como referi acima, mas falhou (bem, não falhou totalmente porque ainda há quem acredite nele cegamente). O facto das definições astrológicas não coincidirem com as pessoas cujos Mapas Astrológicos Siderais tentam retratar, é suficientemente convincente mas, para mim, o prego final no caixão é o facto de nem sequer conseguirem identificar onde Plutão, ou qualquer outro planeta, transita no presente.

Felizmente, no tempo presente, alguns sideralistas (embora ainda sejam muito poucos) são menos dados a recorrer a estas manobras, e procuram trabalhar com os tropicalistas em busca de algo que os diferencie por mérito. Por exemplo, alguns afirmam que o verdadeiro valor do Zodíaco Sideral não está, de facto, na área de análise psicológica, mas sim na predição de eventos futuros – mas também isto está por provar, não só a nível do seu valor absoluto, como em relação ao Zodíaco Tropical.

Na minha opinião, devemos observar melhor o Zodíaco Sideral e procurar encontrar alguma validade nele – se é que há alguma, claro – mas não será hoje que vamos ter uma resposta definitiva à questão base:

- Qual o valor do Zodíaco Sideral?

Fica a pergunta.

Até à próxima.

Sábado, 2 Agosto 2008 - Publicado por Carlos | Astrologia, Teorias | , , , , , , , , | 5 Comentários

5 Comentários »

  1. meu signo nestes horóscopos tradicionais é virgem. nasci em 9 de setembro. não tenho nenhuma semelhança com as descrições que vem nesses mapas, nenhuma. ainda levando em consideração ascendente, lua e tudo mais, não coincide.
    no entanto, quando se olha pelo zodiaco sideral, q é tão criticado no seu texto, tenho uma considerável gama de características leoninas!

    podem estar enganados esses sideralistas que vc critica porem no meu caso, foram os únicos que me prenderam a atencao por mais de 2 minutos.
    pra mim a astrologia era um engodo, um charlatanismo de quinta categoria. aliás, continua sendo. porém consigo ver um pouco mais de graça agora, à luz do “sideralismo”
    grande abraço

    RESPOSTA: O seu comentário é mais que bem-vindo porque, caso não saiba, “crítico” e “céptico” são algumas das características de Virgem, e você consegue demonstrar ambas (e mais algumas que não acho correcto mencionar aqui) em apenas dois parágrafos. Por isso, o facto de dizer que não se identifica com nenhuma das descrições (palavras suas) é apenas sinal que não está bem informada. Não duvido que também tenha características leoninas, afinal, não tenho o resto dos seus dados para confirmar isso, mas que tem características virginianas foi provado por sí mesma, e agradeço-lhe por isso.

    Retribuo o abraço e, mais uma vez, obrigado pelo comentário. Volte sempre.

    Comentário por Camila Souza | Domingo, 7 Setembro 2008

  2. Carlos Granés.
    Li com atenção o seu exposto e admiro, sobretudo, a sua imparcialidade de análise, a humildade com que reconhece que nada está fixo, em concreto, e que a procura das respostas nasce do afrontar as ideias instaladas e na experimentação honesta de novos preceitos.
    As minhas saudações

    RESPOSTA: O objectivo é mesmo esse, partilhar conhecimento, mas incentivar a continuação do estudo e pesquisa dos assuntos levantados. A meu ver, se algum destes textos der ao leitor algo para pensar, então já fez um bom trabalho. Obrigado pelo comentário, volte sempre.

    Comentário por biocrónicas | Segunda-feira, 8 Setembro 2008

  3. Acho muito interessante este tipo de discussão.
    Há algum tempo, depois de um certo contato com a Astrologia, percebi a dicotomia entre os dois sistemas zodiacais e confesso que ainda tenho muitas dúvidas!
    Fico pensando: O que seria primordial nas mentes dos primeiros praticantes da Astrologia? As declinações dos astros, intimamente ligadas as estações ou esses astros em “companhia” com as estrelas de cada signo/constelação?
    Como a Astrologia antiga era totalmente empírica, creio que o fato primordial seria a presença dos astros “dentro” de cada constelação zodiacal, afinal não é mero acaso a mesma nomenclatura para constelações e signos, afinal as primeiras estavam alinhadas com os signos e assim foram atribuídos os mesmos nomes.
    Mas enfim, a precessão dos equinócios não foi prevista na antiguidade e o atual desalinhamento entre as constelações e signos precisa ser discutida, no meu ponto de vista. Parabéns pela iniciativa, abraços!

    RESPOSTA: Olá Cazimi, bem-vindo. Na verdade, é exactamente o oposto, os “antigos” tinham perfeita noção da precessão dos equinócios, como referi no texto anterior a este, “Signos vs Constelações“, nomeadamente, na apresentação do filme “Zeitgeist“.

    Outra prova, inequívoca, são os escritos de Claudius Ptolemaeus, no século II, onde ele referia claramente a diferença entre os dois Zodíacos, e os efeitos da Precessão dos Equinócios.

    Relembro, também, que a Astrologia não foi inventada na altura em que as Constelações e Signos “alinharam”, mas sim milhares de anos antes, através da observação do ciclo natural da Terra (estações do ano numa perspectiva geocêntrica), por isso, a comparação entre Constelações e Signos não faz, nem nunca fez, qualquer sentido.

    Em relação à “coincidência” de nomenclatura, os Signos partilham do mesmo nome porque estamos a falar de uma versão da Astrologia que se desenvolveu no mediterrâneo, tendo como influência a mitologia Romana. Se formos observar o desenvolvimento da Astrologia noutras zonas do planeta, a base para o nome dos Signos muda para outras mitologias, mas a interpretação astrológica mantém-se similar.

    Em resumo, não há qualquer razão para continuar a alimentar o mito de que as Constelações estão, de alguma forma, ligadas aos Signos na prática astrológica – quer seja a moderna como a clássica.

    Espero tê-lo esclarecido. Obrigado pelo comentário.

    Comentário por Cazimi | Quarta-feira, 11 Março 2009

  4. obviamente que estas discordâncias prendem-se ao facto da astrologia ser praticada com empirismos. uma pessoa com uma sol em caranguejo no Zodíaco tropical lhe seria dito que é uma pessoa emotiva, e se ela é emotiva por outro factor que não esse?

    RESPOSTA: Olá Carlos, bem-vindo. Vamos por partes. Em primeiro lugar, definir alguém pela posição do Sol seria um grave erro. Segundo, é por causa da possibilidade de alguém ser “assim”, por outro motivo, que dei o exemplo que dei da pessoa com Planetas em Peixes, Capricórnio, etc, e como ficariam todos em Aquário, Sagitário, etc, no Zodíaco Sideral – ou seja, completamente diferente, e facilmente observável a conclusão.

    a grande maioria dos astrólogos que conhecemos usam poesia na astrologia, e de ai o desprestigio. eu ainda estou para ver porque um Zodíaco inventado tem mais validade que o real, mas pronto….
    Quando a astrologia deixe de ser poesia e volte ao que ela é, ai liguem-me.

    RESPOSTA: Neste ponto, concordo plenamente consigo, embora penso que não pelos mesmo motivos.

    É que as Constelações, de facto, não existem. São “desenhos” imaginados que nós homens fazemos para combinar alguns agrupamentos de estrelas que, na verdade, estão a milhões de anos-luz umas das outras e, como tal, não têm qualquer ligação real. Para além disso, as estrelas não estão fixas, por isso, daqui a uns milhões de anos, nenhuma das Constelações actuais irá existir.

    O Zodíaco Tropical, porém, é baseado nas estações do ano (ou posicionamento da Terra em relação ao Sol, se quisermos recorrer a uma perspectiva mais astronómica), o que significa que é baseado em algo de concreto.

    Em conclusão, tal como você, também estou para ver porque um Zodíaco inventado (Sideral) tem algum tipo de validade face ao real (Tropical), mas não me preocupo tanto porque sei que são poucos os que usam o Sideral, por isso, não será por aí que a Astrologia fica ameaçada.

    O desprestígio da Astrologia está ligado a muitos outros factores que não abordei aqui neste texto, nomeadamente, o facto de certas pessoas intitularem-se astrólogos sem terem formação para isso, mas se tiver o tempo e amabilidade de ler o resto do blog, verá que já abordei essa temática algumas vezes.

    Obrigado pelo comentário.

    Comentário por carlos rodrigues | Segunda-feira, 30 Março 2009

  5. por que na astrologia sideral o ayanamsa varia entre 19° a 24° ? e por que spica é usada como ponto inicial no sistema lahiri?
    por exemplo eu sou ariano do dia 10 de abril nasci as 11 e 35 da noite, e em alguns sistemas eu sou ariano e em outros pisciano?

    RESPOSTA: Essa é apenas uma das várias questões que levam a pensar que os sistemas Siderais não são muito confiáveis. Até que alguém prove a sua validade, o melhor é mesmo focar no sistema Tropical, que tem demonstrado bases bem mais sólidas. Obrigado pelo comentário.

    Comentário por marlon | Terça-feira, 5 Maio 2009


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